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Luiz Carlos Merten

20 Maio 2012 | 07h43

CANNES – Assisti ontem ao filme palestino Les Chevaux de Dieux, sobre a formacao de um grupo de terroristas islamicos. O filme me provocou uma emocao muito forte. Juntei-me ao copro de aplausos e os atores jovens estavam na sala de Un Certain Regard, foi muito forte. A noite, Thomas Vinterberg mostrou La Chasse, A Caca. Mads Mikkelsen faz o bom camarada que eh acusado de molestar uma menina no jardim de infancia. Sua vida vira um inferno, o colapso atinge seu filho, que, ao defender o pai, eh agredido pelos antigos parceiros de Lucas (eh o nome do personagem). Gostei demais de Mikkelsen, mais um nome a acrescentar aos de possiveis melhores interpretacoes masculinas e o filme tambem eh muito bacana, mas o tempo todo eu me perguntava como isso vai terminar? Termina mal, no sentido de que Vinterberg naoh soube propor um final comncvincente para o drama que retrata. O filmer tem tres ou quatro finais e ele encerra com o pior. O bom seria o reemncontro de Lucas com o pai da garota que o acusou. Ela o faz inocentemente, mas eh o olhar dos adultos, completamente irracional nesta era de politicamente correto, que desencadeia a tragedia. Eh um bom film,e, mas poderia ser melhor. Jantamos, um grupo de brasileiros, apos o Vinterberg e, a 0h30 (madrugada), fomos ver, Carlos Eduardo (de Londina) e eu,  o Dracula de Dario Argento, em 3-D. O pai de Asia Argento foi recebido com honras, como `mestre`, no tapete vermelho de Cannes. Asia estava com ele. O palais estava lotado de admiradores e quase veio abaixo aplaudindo os dois, pai e filha. O filme, mal comecou, teve de ser interrompido por problemas no sistema digital. Ocorreu o mesmo no Recife, lembram-se? Assisti aos primeiros filmes de Dario na estreia, voces nem eram nascidos (a maioria, pelo menos). Naquele tempo, ninguem o levava a serio. Hoje, Dario eh reconhecido como genio – mais ou menos como Jose Mojica Marins no Brasil (eh o Mojica italiano? Pode ser…). Acho legal essa ausencia de preconceito, mas tenho de admitir que a estetica cafona de Argento permanece nos anos 1970. Eh muito brega, com aquele vermelhaoh todo de sangue e efeitos que fazem questaoh de naoh ser especiais. A sessaoh terminou quase 3 da manhah e as 7 jah estava de peh para assistir a Michael Haneke, Amor. Assim como naoh sabia que The Hunt era sobre abuso, tamnbem naoh sabia que Amour trata de terceira idade, a relacaoh de um casal de velhos. A saude dela vai deteriorando, e tudo se passa numa casa que Jean-Louis Trintignant, o marido, tenta manter funcionando. A coletiva foi muito concorrida. Trintignant parece estar nas ultimas, digo fisicamente, porque a cabeca permanece lucida, a mil. Emmanuelle Riva, que se acaba no filme, estah, pelo contrario, rija na realidade. Ninguem consegue ser cinefilo sem amar Riva em  Hiroshima, Meu Amor. O filme de Haneke eh bom, mas doloroso – ou doloroso, mas bom. Naoh me empolgou, ele, em geral, naoh me empolga. Admiro a falta de sentimentalismo, eu que sou taoh transbordante. Riva e Trintignant saoh excepcionais. Ele tem grandes competidores ao premio de melhor ator. Ela concorre sozinha a melhor atriz, mas, enfim, eh um mito e o juri talvez prefira alguem mais jovem.