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Luiz Carlos Merten

22 Novembro 2009 | 23h13

Antes de ‘Hamelin’, deixem-me acrescentar só mais uma coisinha sobre ‘O Inquilino’, que acho que não ficou clara naquele post. Escrevi, escrevi e não disse o essencial. Sobre o que versa ‘O Inquilino’? É sobre o medo da perda da identidade. Ou a memória me falha muito, ou tem uma cena em que o personagem, o pequeno polonês, diz algo como – “Que direito tem a minha cabeça de se chamar eu?” Dito isso, quero falar de ‘Hamelin’. Tive um fim de semana bem teatral. Desde sexta, assisti a quatro peças – ‘Restos’, ‘As Meninas’, ‘Da Possibilidade de Alegria no Mundo’ e ‘Hamelin’. Cada uma me ofertou alguma coisa, mas o melhor espetáculo, a melhor montagem, foi a da opeça de Juan Mayorga, autor que desconhecia Não pesquisei na internert, mas, com este nome, o cara deve ser espanhol. O filme é sobre um policial que investiga caso de abuso sexual contra um menor. O título faz referência à célebre história do flautista – que Jacques Demy transformou em filme com Donovan. Adorei a estrutura da peça – as cenas vão sendo enumeradas e existem narradores que vão comentando para a gente. No limite, é uma peça sobre a linguagem, tratando de um sujeito – o policial – que devassa uma família (a do menino abusado) e fica tão obcecado que não consegue ver o que se passa em sua família, com o filho dele. Acho que a peça, simplesmente filmada, daria um roteiro maravilhoso, alguma coisa na linha do cinema de Jean-Marie Straub, cuja obra, sozinho ou em conjunto com Daniele Huillet, também é, toda ela, uma reflexão sobre a linguagem. Gostei muito do caráter meio rascunhado, da peça e da encenação. Nada é conclusivo e, por isso mesmo, saí do CCBB com a cabeça em ebulição e o coração oprimido. Estava realmente no momento ‘ideal’ para ler o recorte sobre Roman Polanski que guardara no bolso. ‘Me fui como quien se desangra…’ Vladimir Brichta é um p… ator. Na apresentação, o diretor André Paes Leme diz que ‘Hamelin’ é um daqueles projetos, como disse um amigo dele, que são feitos com convicção. Não só Vladimir, todo aquele elenco – Alexandre Dantas, Alexandre Mello, Cláudia Ventura, Oscar Saraiva e Patrícia Simões – me pareceu bem consciente. E eu confesso que me emocionei muito vendo aqueles adultos fazerem crianças. Uma certa maneira chorosa de falar, de torcer as mãos, de fragilizar o corpo… ‘Hamelin’ fica mais uma semana no CCBB. Não sou crítico de teatro, mas, se uma recomendação minha vale alguma coisa, sugiro que vejam.