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Cultura » ‘Hablemos’ de Pina

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Luiz Carlos Merten

30 Junho 2009 | 14h45

Morreu Pina Bausch. A coreógrafa alemã trabalhava num projeto com Wim Wenders. Ele queria filmar em 3-D, para colocar o espectador no centro das coreografias dela. Presumo que esse projeto tenha morrido com Pina, porque parece que ainda não estava filmado e não se trata simplesmente de fazer uma substituição. Era o espírito de Pina que Wenders queria captar. Era também o espírito da dança que a própria Pina encarnava para Almodóvar em ‘Café Müller’, na abertura de ‘Fale com Ela’. Bem antes disso, Pina fazia uma cega no cruzeiro de ‘E la Nave Va’, em que Fellini embarcou – e enterrou – a Belle Époque, em seu último (para mim) grande filme. Não era só o adeus a uma diva do canto lírico. Era já o adeus de Fellini a si mesmo. A morte de Pina Bausch vem na sequência da de Michael Jackson. Não quero fazer comparação nenhuma, mas foram dois artistas de gênio. Acho que foi a Monique Gardenberg, ouvida pelo Jotabê Medeiros, quem disse que Pina Bausch fosse a maior arista (mulher) do século. Do ponto de vista midiático, de qualquer maneira, o ‘Moonwalker’ teve mais apelo (e, claro, ganhou mais páginas). Passei minha manhã ouvindo piadinhas. Morreu a ‘Tina’. Carrego essa cruz. Numa das vezes em que Pina esteve no Brasil, eu estava na edição do ‘Caderno 2’, num domingo. Redigi um texto inteiro com informasções que me iam sendo repassadas pelo pessoal da sucursal do Rio. Era Pina para lá, Pina para cá, o texto inteiro. Na hora de fazer o título, me baixou sei lá que mau espírito e eu tasquei ‘Tina’. Sei que essas coisas acontecem, mas certamente não são agradáveis. Outro dia, na concorrência – segundo me contaram –, ‘1984’ foi atribuído a Orson Welles e hoje a ‘Folha’ assinala o nascimento de um grande documentarista, um tal de Rouche. Entendo essas coisas e não atiro pedras porque carrego o meu carma com a ‘Tina’. Sempre tem alguém para me lembrar do episódio. Eu o cito aqui, mas estou pensando é no ‘Fale com Ela’. Fico em dúvida sempre que me perguntam qual é meu Almodóvar favorito. Tenho a impressão que é ‘Carne Trêmula’, que amo, mas também gosto muito de ‘Tudo Sobre Minha Mãe’ e ‘Fale com Ela’. Neste momento, se me perguntassem, acho que ficaria com “Hable con Ella’. Duas mulheres em coma e dois homens que se conhecem num teatro, um enfermeiro gay e um escritor hetero. Eles se sentam lado a lado para assistir a uma coreografia de Pina Bausch. Na verdade, não se conhecem ali, mas mais tarde, no hospital.O enfermeiro é devotado a uma bailarina que está inconsciente. Ele fala com ela, lhe faz massagens. Há algo de erótico nesses contatos que, de qualquer maneira, não são sexuais. O escritor vela pela amante, uma toureira que foi agredida pela besta na arena e também entrou em coma. O hetero, ao contrário do homo, tem dificuldade para compartilhar sua emoção. Essa dificuldade é o tema da coreografia de Pina Bausch. Até como uma homenagem pessoal – e uma retratação, quem sabe –, fiquei morrendo de vontade de (re)ver ‘Hable con Ella’.