Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Hablemos de Cine

Cultura

Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2007 | 12h45

Viajo hoje à noite para Los Angeles, o que significa que vou ter de correr muito, à tarde, para terminar um monte de matérias que preciso deixar prontas. Isso significa também que não vou ter mais tempo de postar hoje – talvez no aeroporto –, e até que, dependendo de encontrar (ou não) uma lan-house, posso ficar uns três ou quatro dias sem postar, porque detesto levar laptop, sempre alvo redobrado da segurança nos aeroportos, como se só o fato de portar um já aumentasse a suspeita em torno da gente. Mas, enfim, quero relatar uma coisa – em geral, é preciso conexão (por Dallas, Miami e até Nova York) para chegar a Los Angeles, mas desta vez vou pela Lan Peru, com apenas uma parada técnica em Lima. Isso me estimula a escrever uma coisa que há tempos ando com vontade de postar. Outro dia, alguém me esculhambou – e à crítica em geral – por causa dessa mania de cinema de autor que, segundo essa pessoa, seria (ou é) uma herança de ‘Cahiers du Cinéma’. Já disse que ‘Cahiers’ foi muito lateralmente responsável pela minha formação. Meus colegas liam a revista em Porto Alegre e eu terminava absorvendo as idéias mais pelos diálogos com eles – era uma época em que se conversava; hoje é cada um no seu galho –, mais do que por meio de conceitos assimilados diretamente da revista. Mas, enfim, no começo dos anos, viajando pela América do sul, descobri outra revista que, essa sim, eu adorava e foi decisiva para mim. ‘Hablemos de Cine’ não deixava de ser uma espécie de ‘Cahiers’ latina, radicalmente defensora do cinema de autor (e da estética política, num época em que as ditaduras oprimiam Nuestra América). Não sei se existem referências na internet, mas era uma revista em castelhano, peruana, com um alto nível de teorização e engajamento. Se for possível reasgatar, de alguma forma, aqueles velhos números, recomendo. Eu sabia mais sobre Cinema Novo lendo em ‘Hablemos de Cine’ – e sobre novas cinematografias, e autores cults – do que com minhas fontes brasileiras. Na época, morava em Porto Alegre e Rio e São Paulo eram mais distantes para mim do que Montevidéu e Buenos Aires. Já disse que a Cinemateca Uruguaia foi fundamental para mim. Saía de Porto Alegre à noite, de ônibus. Dormia e acordava em Montevidéu, aonde íamos todos – minha ex-mulher, a Doris, meus amigos Tuio Becker e Hiron Goidanich, o Goida –, para assistir a filmes muitas vezes proibidos no Brasil e que eles, com ditadura militar e tudo, terminavam assistindo porque havia naqueles países, e no Uruguai, chamado de Suíça sul-americana, em especial, uma tradição européia muito forte de filme de arte. Não se pode esquecer que Bergman, em todo o mundo, foi uma descoberta de Homero Alsino Thevenet no Uruguai – há 50 e tantos anos. Hoje, o mercado de lá é minúsculo e dominado por Hollywood. Mas, enfim, por volta de 1970 eu comprava ‘Hablemos de Cine’ com a maior facilidade, em Montevidéu. Possuía uma coleção da revista. Ela terminou por se perder. A passagem, esta noite, por Lima está sendo a madeleine para me lembrar de ‘Hablemos de Cine’. Mas eu também pensei em função de Bertolucci, da ‘Estratégia da Aranha’. E não apenas ele – Godard, Straub, Bellocchio, Glauber, Ruy Guerra, Littín, Solás. Todos eram assíduos nas páginas da revista.