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Luiz Carlos Merten

18 Julho 2007 | 13h14

Não gostei muito de The Last Days, quando assisti ao filme de Gus Van Sant, em Cannes, há dois anos. Gostava do diretor na época de Mala Noche, de Drugstore Cowboy e Garotos de Programa, mas acho que a experiência de Até as Vaqueiras Ficam Tristes foi traumática para ele. O filme foi remontado, ficou ioncompreensível. Acho que, como reação, Gus Van Sant fez seu filme mais clássico, Gênio Indomável, que me pareceu hollywoodiano demais (e deu o Oscar de roteiro para Matt Damon e Ben Affleck). Seguiu-se uma fase errática, com o remake de Psicose e o que me pareceu Gênio Indomável 2, Procurando Forrester. Van Sant devia estar louco quando fez Psicose. Clonou o clássico de Hitchcock, repetindo plano a plano, no mesmo timing. Quando mudou, o que mudou, foi para muito pior. Com Elefante, que ganhou a Palma de Ouro, ele reencontrou um caminho. Retomando o mesmo episódio que inspirou Tiros em Columbine, Van Sant seguiu o caminho inverso de Michael Moore. Fez uma ficção tênue, narrando por meio de elipses a história daqueles garotos que promovem um banho de sangue no campus. Fez depois The Last Days, Os Últimos Dias, que passa amanhã na TV paga (19h45 no Cinemax). Acabo de fazer um destaque do filme na TV e é por isso que estou postando. Salvo engano, The Last Days não estreou no Brasil. Teve sessões especiais em mostras e saiu em DVD. É quase uma conseqüência de Elefante. Van Sant baseou-se nos últimos dias de Kurt Cobain, mas os créditos finais dizem que é ficção, que qualquer semelhança com pessoas e lugares é mera coincidência etc. Não é. Seu roqueiro, Blake, vive uma solidão pavorosa. Isola-se de tudo e todos naquela cabana na floresta. Não se comunica. Vira um matrapilho. Em Elefante, Van Sant queria saber por que aqueles jovens mataram? Aqui, já que não existem registros confiáveis, tenta descobrir não apenas por que Blake/Cobain se matou, mas como foram seus últimos dias? Simples – os mais violentos matam. Os sensíveis SE matam. E em ambos os casos é a falta de perspectivas que corrói a alma dos jovens. Como disse, não gostei de The Last Days. Van Sant desglamourizou o mundo do rock e ressaltou seu lado romântico e destrutivo. Seu filme é o reverso de Velvet Goldmine, de Todd Haynes, do qual gosto mais. Van Sant voltou a Cannes este ano. Mostrou Paranoid Park na competição. De novo os jovens sem perspectivas, de novo a morte, agora metamorfoseada de crime acidental que os garotos, todos skatistas, tentam esconder. Gostei mais de Paranoid Park do que de The Last Days, mas Van Sant não é mais minha praia. Não me toquei nem um pouco com seu episódio de Paris te Amo.