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Luiz Carlos Merten

01 Setembro 2011 | 11h13

Participei ontem à noite de um evento promovido pela 2001, na loja da Sumaré. Um debate sobre ‘Cópia Fiel’, de Abbas Kiarostami, que foi muito bacana. Pretendo voltar a essa discussão, mas agora vou tratar de outro assunto que está pendente para mim, há dias. Quando estou nos EUA, adoro ver TV. ‘Law and Order’, ‘CSI’, aqueles programas de juízes. Desta vez, deixei tudo de lado porque descobri uma série de canais ‘Encore’. Encore Comedy, Drama, Westerns… Sempre que podia, me enfurnava no quarto para ver westerns. Que belo filme é ‘Um Certo Capitão Lockhart’, The Man from Laramie, de Anthony Mann, com James Stewart. E ‘Um Clarim ao Longe’, A Distant Trumpet, de Raoul Walsh, a despeito de Troy Donahue. Já contei como este filme foi importante na minha vida. Havia entrado na Faculdade de Arquitetura da UFRGS. A ditadura militar se instalara em 31 de março. Havia um mural para livre expressão dos alunos. Usei o filme de Walsh e a luta do tenente Matt Hazard em defesa dos índios para falar do que estava ocorrendo no País. Nunca mais parei de escrever sobre cinema. Desde 1964! Muitos de vocês (a maioria?) nem eram nascidos. Pois bem – assisti no tal canal de westerns a ‘Gunsmoke: One Man’s Justice’. O telefilme de uma hora começou, lancei uma vista d’olhos e fui ficando, ficando… ‘Gunsmoke’ é um marco na história da TV nos EUA. Não sei se ainda é a série mais longeva da história da TV, mas em todo caso foram 20 temporadas, entre setembro de 1955 e setembro de 1975. No total, foram 233 episódios de meia hora e 400 telefilmes de uma hora, entre os quais ‘One Man’s Justice’. Um garoto de 16 anos pega em armas para vingar a morte da mãe num assalto a diligência. Ele tem um irmão menor, que fica na casa de Matt Dillon, não o ator, mas o personagem de James Arness. Dillon vai atrás, para impedir que a gangue mate o jovem. Ele ganha um parceiro, que, durante a jornada, revela ter tido participação no roubo. Este homem vai se sacrificar, num momento chave, para salvar a vida do garoto. Tendo o chefe dos bandidos na mira do revólver, o próprio garoto desiste da vingança e volta para brincar com o irmão e o cachorro. É o último plano do telefilme de Jerry Jameson. Ele fez ‘trocentos’ filmes, a maioria para TV. No cinema, tenho quase certeza de que dirigiu um dos filmes da série ‘Aeroporto’ – aquele com Jack Lemmon e James Stewart. Jerry Jameson nunca foi garantia de nada, mas aquele pequeno western para TV me apanhou. O garoto é ruim de tiro. Dispara todo um cartucho contra o alvo que não consegue acertar. O cavalo, assustado, consegue desvencilhar o laço que o mantém preso e dispara. O jovem caminha sem parar, carregando a pesada cela. Surge um velho índio que lhe devolve o cavalo. Conflitos simples e diretos, arquétipos de coragem, de honra. Confesso que me criei vendo esses filmes e eles me levaram a acreditar em certos valores que o mundo ao redor insiste em colocar em xeque. O jovem de 16 anos que retoma sua infância é uma imagem impensável em 2011, mas tão bonita no sentido geral de ‘One Man’s Justice’. Não me lembro mais se foi no mesmo dia, mas saí para ir ao cinema. O ‘mall’ era próximo, cinco minutos no carro do hotel. Na saída da sala, sem celular, não encontrei telefone público para chamar o carro do hotel de volta, ou um táxi. Resolvi ir caminhando, afinal, parecia tão perto. Perdi-me naquelas ruas que nem ruas eram, mas freeways. Não havia acostamento, caminhava na grama. De repente, vi um prédio, do outro lado. Resolvi atravessar, o que não foi fácil. Ia saindo um cara, resolvi lhe pedir informação. Qual é a chance de ocorrer o que vou contar? O cara era brasileiro, Daniel, e, como eu, estava a trabalho. Gentilmente, e munido de GPS, ele me levou até o hotel. Se isso fosse um filme, ninguém ia acreditar nem eu. Mas esse tipo de gentileza, de nobreza?, me faz falta. Me devolve ao garoto que larga suas armas para brincar o cão. ‘Gunsmoke’! Jerry Jameson! Fui procurar na internet. Ele fez ‘One Man’s Justice’ em 1994, fora da série oficial (mas, parcialmente, com o mesmo elenco). Quem diria que eu teria um dia de agradecer a Jerry Jameson por esta bela emoção.