Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Guerras nas Estrelas

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Guerras nas Estrelas

Luiz Carlos Merten

16 Setembro 2006 | 15h55

Tenho entrevistado, com alguma freqüência (e pelo telefone) o diretor francês Arnaud Desplechin. A última vez que falamos foi a propósito de Reis e Rainha, que virou uma espécie de obra de referência da crítica mais avançada. Em conversa com Arnaud, vou dizer assim, como se fosse um amigo, ele disse uma coisa interessante – que a divisão entre cinema comercial e de arte é coisa de maus críticos. Ele citou Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan. Disse que é o maior filme sobre racismo da história do cinema. Aquele cara, interpretado por Samuel L. Jackson, que qualquer coisa pode quebrar, é a metáfora mais poderosa, segundo Arnaud, do racismo na tela.
Me lembro que, no Brasil, os coleguinhas (críticos) caíram matando. Viram no filme só o maniqueísmo tradicional de Hollywood, essa coisa de que o bem e o mal absolutos não existem, etc e tal. Seguindo a indicação de Arnaud Desplechin, poderia sugerir que vissem o filme de novo, e desta vez tentando entender, porque às vezes não é fácil entender o cinemão.
Falo isso a propósito da matratona Star Wars que rola daqui a pouco, a partir das 17h10, no Telecine Action, mostrando Star Wars Episódios 1 e 2, A Ameaça Fantasma e O Ataque dos Clones, precedendo, às 22 horas, a exibição do episódio 3, A Vingança dos Sith, em outro canal Telecine, o Premium. Os mesmos críticos que não entenderam Corpo Fechado também não entenderam nada da transformação de Annakin Skywalker em Darth Vader. Viram só maniqueísmo, imbecilidade, aquelas coisas que não se cansam de repetir. O próprio fato de o filme mostrar a transformação da república em império, e isso tem tudo a ver com a era George W. Bush, foi menosprezado. Pode ter sido mera coincidência de ter ocorrido justamente agora, mas o fato de George Lucas ter escrito o filme há 30 anos, e ter antecipado isso,já é um dado impressionante. O cara é um visionário.Gostem ou não, mudou a face do cinema e antecipou tendências – não só a ficção científica e a estética dos efeitos. Ao usar o digital, ele abriu o caminho para Lars Von Trier e sei lá quem mais. Ao retocar a cena final de O Retorno do Jedi, para nela colocar a cara de Hayden Christensen, ele fez algo que pode ser que me engane, mas acho que foi inédito em toda a história do cinema. Lucas não é um grande diretor, mas conceber este projeto imenso de seis filmes não representa pouca coisa. A construção do vilão, na primeira trilogia, e a do herói na segunda, opondo uma à outra como um conflito de fundo psicanalítico (o complexo de Édipo), é mais do que simplesmente interessante. E você só vai fruir se pensar, se reconstruir os filmes no seu inconsciente até descobrir que Lucas, na verdade, transpôs para o espaço um dos monumentos da arte cinematográfica – Rastro de Ódio, de John Ford.