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‘Guerra e Paz’

Luiz Carlos Merten

27 Dezembro 2008 | 11h56

Voltei ontem para São Paulo. Cheguei no início da tarde e, mal entrei em casa, liguei a TV dei uma zapeada. Havia começado o ‘Guerra e Paz’ de King Vidor. Não desgrudei até o final. Acho que um milhão de peessoas, e não apenas meus colegas críticos, dirá que o rei Vidor edulcorou o romance de Tolstoi, mas eu sempre me encantei com as cenas de Pierre (Henry Fonda) atravessando a batalha de Borodino, como Gabrizio Del Dongo na guerra de ‘A Cartuxa de Parma’, de Stendhal. Sempre gostei de Audrey Hepburn como Natasha e de Henry Fonda como Pierre, mas ontem percebi como nunca a amargura e o porte aristocrático de Mel Ferrer como o principe Andrei. Depois, até fiquei pensando – Ferrer morreu recentemente. Será que isso pesou para que eu prestasse mais atenção nele e na construção de seu persnagem? Pierre, odiando a guerra e sendo compelido a ela, é um porta-voz mais natural do humanismo místico de Tolstoi, mas algumas das melhores falas são de Andrei, quando serve de emissário do cazar Alexandre para Napoleão ou quando reencontra o amigo, às vésperas de Borodino, naquele momento em que antecipa a própria morte. Sei que ‘Guerra e Paz’ me apanha e já tê-lo visto, sei lá, uma dezena de vezes na TV paga, na qual o filme vive passando. Acho a trilha de Nino Rota maravilhosa, com seus ecos de Tchaikovski, a ‘1812’, e as cenas da retirada do Exército de Napoleão são impressionantes. O próprio Napoleão é muito bem pintado. A princípio, é arrogante, depois soturno, e Herbert Lom, que faz o papel, realmente se parece com a imagem consagrada pela iconografia. A cena em que Pierrre fica de tocaia, esperando pela passagem do general/imperador naquela Mosdcou noturna e deserta, me deixa sempre tenso. É o mistério do cinema. Eu sei que ele não conseguirá matar Napoleão, como pretende, mas a tortura íntima do personagem é uma coisa transparente. Sei que Henry Fonda e o diretor brigaram por causa da concepção do personagem, mas pelo menos o pai de Jane Fonda não demitiu King Vidor, como havia feito um ano antes com John Ford, substituído por Mervyn LeRoy em ‘Mister Roberts’, por exigência do ator. Foi o fim, de uma grande amizade, e os dois, Fonda e Ford, parceiros em grandes filmes, nunca mais se falaram – como ocorreria, nos anos 60, no Japão, com Akira Kurosawa e Toshiro Mifune, mas misturo as histórias. Voltemos a ‘Guerra e Paz’. A produção, que reuniu (como sócios) Carlo Ponti e Dino de Laurentiis, é de um tempo em que uma cena de multidão tinha mesmo de ter multidão. Ainda não existiam os recursos computadorizados que hoje permitem transformar qualquer grupo de dez em mil. No máximo, podiam-se colocar alguns manequins em cenas de multidão estática – em estádios, por exemplo, como na cena do Coliseu, em ‘Ben-Hur’. Aquele Exército que se arrasta como uma linha no meio da tela, em plena neve, me impressiona muito. Adoro o general russo, Oskar Homolka, quando explica que é preciso esperar para poder derrotar o invasor – e o que ele espera é justamente pelo inverno. E a cena do baile é (pré)viscontiana. Ouvimos a voz interior de Natasha. Ela veio ao baile, mas está insegura. Acha que vai ser um desastre, fica pensando em Andrei – antes de ser seduzida por Anatole (Vittorio Gassman) -, e, de repente, sobre a voz dela, superpõe-se a dele, convidando-a para dançar e os dois saem rodopiando pelo salão. É um filme que me encanta. Não diria que é uma obra-prima, muito menos que seja perfeito. Mas dá conta da complexidade do livro. Simplifica, talvez, não edulcora. E a batalha de Borodino é um assombro. Aquele plano do campo de batalha visto do ângulo da mão de Pierre, que pegou uma flor e ela cai quando Henry Fonda se dá conta do meio da encrenca em que está metido – aquilo é excepcional. A flor é amarela e o detalhe é fundamental. O campo é verde, os uniformes dos soldados franceses são manchas verdes e azuis. Do detalhe para o todo, o conceito e poderoso. King Vidor era f…