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‘Guerra dos Mundos’

Luiz Carlos Merten

11 Julho 2011 | 09h10

Ñão sei exatamente a que horas terminei o post sobre RIchard Fleischer, ontem à noite – o sistema deve ter registrado a hora exata -, mas ‘Guerrra dos Mundos’, de Steven Spielberg, já estava rolando na dsessão das 10 de não sei qual canal da rede Telecine e eu volta e meia lançava uma vista d’olhos à TV. Quando dei o post por encerrado, entreguei-me a Spielberg. Era a cena em que pai e filha, Tom Cruise e Dakota Fanning, se escondem do alienígena que invadiu a casa. Na cena seguinte, Dakota é capturada pelos tentáculos da coisa e Cruise, o pai desesperado, faz de tudo para chamar a atenção do invasor e ser capturado também. Tenho visto, nos últimos diasm, na TV paga, muitos filmes sobre a paternidade, mas nenhum se compara a ‘Guerra dos Mundos’. Me encanta, mais do que isso me emociona profundamente o desfecho, quando Cruise, depois daquela incrível jornada, deposita a filha em frente à casa da mulher. Vimos, pelo começo, que o ressentimento permasneceu na relação entre ambos, mas ela faz aquele agradecimento silencioso e Cruise permanece do lado de fora, como John Wayne, no desfecho de ‘Rastros de Ódio’. Mais do que a citação ao clássico de John Ford – e Spielberg faz outra citação fordiana, à cena do beijo de ‘Depois do Vendaval’, em ‘E.T. – O Extraterrestre’ -, o que me atrai é aquele sentimento de estar à margem, de não pertencer a nada nem ninguém. Quando revejo um grande filme como ‘Guerra dos Mundos’ – e eu amo a trilofgia informal formada pela adaptação de H.G. Wells como episódio intermediário entre ‘O Terminal’ e ‘Munique’ -, confesso que tenho sempre um sentimenmto de pena pelos que talvez condsiderem a fantasia um gênero menor ou só conseguem entender a realidade a partyir de sua reprodução. Na junkett de ‘Transformers 3’, no Rio, estávamos no mesmo hotel e eu conversei bastante com Ana Paula Souza sobre isso. Havíamos jantado e, depois, estendi os dois dedos de prosa, como se diz no Sul, com, minha amiga (concorrente?) da ‘Folha’. Confesso que sinto falta de Silvana Arantes, de quem gosto tanto, mas os encontros com Ana Paula, em eventuais junketts e festivais do Brasil e do exterior, são sempre enriquecedores. Voltando à ‘Guerra dos Mundos’, a versão de Spielberg, não entendo por que a relação entre pai e filha do filme possa parecer menos verdadeira que a pai e filho em ‘Ladrões de Bicicletas’, de Vittorio De Sica, no auge do neo-realismo, por exemplo.  Não vou discutir, aqui e agora, teoria de cinema, qu’est-ce que le cinéma?, mas uma visão impositiva, excludente das outras, me parece empobrecedora demais. Mudando o foco, mas não o assunto, devo ser o único que não considera ‘Cabra Marcado para Morrer’ o melhor filme de Eduardo Coutinho nem o melhor documentário do cinema brasileiro. Mas não é mesmo! Não importa qual seja, ou é, meu favorito, mas há uma cena, em particular, que faz o meu prazer, o meu gozo, na obra de Coutinho. É em ‘Jogo de Cena’, quando a entrevistada fala de ‘Procurando Nemo’ e Coutinho, obviamente, não consegue enxergar do mesmo jeito que ela a história do peixe quye atravessa o oceano em busca do filho. Ela ri e diz algo como ele, Coutinho, a quem chama de ‘senhor’, ser um comunista, ou seja, alguém formado e deformado pelo ‘materialismo histórico’, incapaz de um outro olhar. Escrevi alguns livros para desenvolver e expressar esse olhar, o meu, e é o único que me interessa e, às vezes, tenho vontade de escrever outro, porque sinto que me devo um grande texto sobre Luchino Visconti – e ‘Rocco’, e ‘Vagas Estrelas’ -, mas, ao mesmo tempo, sei que o livro teria de nivelar meu amor por Visconti e por ‘Ratatouille’ e eu seria capaz de jurar que o sonho irrealizado do mestre – a adaptação de ‘Em Busca do Tempo Perdido’, mas o perfume de Proust percorre toda a sua obra – foi alcançado por Brad Bird na fantasia sobre o ratinho que quer ser chef. A cena do crítico em ‘Ratatouille’ é simples e, ao mesmo tempo, é um monumento, um daqueles raros momentos, de contar nos dedos de uma mão, que fizeram avançar o cinema nos anos 2000. Já delirei bastante a partir de ‘Guerra dos Mundos’. Já escrevi, como todo mundo, muita bobagem sobre Spielberg – muita coisa que considero boa, também -, mas a verdade é que, numa certa épocas, fiquei preso à facilidade da etiqueta da ‘síndrome de Peter Pan’ que lhe colaram (os coleguinhas norte-americanos). Spielberg ganhou duas vezes o Oscar, fez alguns dos maiores sucessos do cinema e se desconcerta, até hoje, saltando de gêneros e ignorando o próprio estilo, eu, particularmente, quero dizer que troco sua obra inteira (ainda incomploeta, felizmente) pela ‘trilogia’. A América, pós-11 de Setembro, está lá, sem que uma citação seja feita às torres gêmeas. Todos os grandes temas, também. A autoridade, a paternidade, o humanismo judaico, a ética. Tudo, mas se dentro da trilogia eu tivesse de escolher seria aquele Tom Cruise do lado de fora da casa, num mundo em ruínas, abraçando o filho. Minha ressaca emocionasl não tem fim. Deve ser a lenta recuperação da pneumonia. Pode ser.