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Luiz Carlos Merten

17 Março 2008 | 15h12

Não sabia quem era Charles Ferguson, mas Amir Labaki explicou que ele ficou milionário com o boom da internet. Criou sei lá que site, ou portyal, que depois vendeu por uma nota preta e, montado neste dinheirio, produzxiu do próprio bolso ‘Sem Fim à Vista’ ( No End in Sight). O filme entrevista um monte de ex-assessores de George W. Bush que foram, inicialmente, favoráveis à invasão do Iraque – ou seja, não era gente contrária, desde o início –, mas rapidamente perceberam que aquilo virou uma sucessão de erros que, como diz o título, não aponta para nenhuma solução à vista. Logo no começo, um daqueles assessores destaca a ‘visão’ de Bush Jr. e diz que a história mostrará sua grandeza. Tá louco? O que se segue é o de sempre. Bush não se envolve, ‘delega’ e tem o péssimo hábito de escolher ‘responsáveis’ que são mais irresponsáveis do que ele. Chega de aspas. Lá pelas tantas, ferguson contabiliza o custo da guerra – é coisa mais de URS$ 1 trilhão. Como ele não é Michael Moore, não diz quem está lucrando com esta dinheirama. Os soldados se sentem traídos, o povo iraquiano, que queria se libertar do jugo de Saddam Hussein, descobriu que vive uma situação pior ainda… Um horror. Em ‘Fahrenheit 11 de Setembro’, Moore invadiu com sua câmera um encontro de assessores de Bush com empreiteiros, banqueiros e o escambau e a gente ouviu claramente um daqueles caras dizer que a reconstrução do Iraque iria enriquecer todo mundo naquela sala. Vamos dar o desconto que é Michael Moore, inimigo mortal de Bush Filho, mas ele não fraudou. O cara disse aquilo mesmo. Ou seja, pode até ser que o presidente não esteja lucrando, mas seus amigos e apoiadores, sim. Esqueçam esta frase ou a creditem à minha má vontade com o mais cínico dos presdidentes norte-americanos dos últimos, sei lá, 50 anos. O que quero dizer é que é uma pena que o novo documentário de Errol Morris, premiado em Berlim, não esteja no É Tudo Verdade. Quando cheguei da Berlinale, até liguei para Lia Vissotto, da Cinnamon, que faz a assessoria da Sony, sugerindo que incentivasse Amir Labaki a incluir o filme do Morris, ‘Standard Operating Procedure’, na seleção. Acho que não deu, mas ele vai estrear (ou ser lançado em DVD, não sei). Gostei menos de ‘SOP’ do que de ‘Sob a Névoa da Guerra’. O próprio Morris assume suas idissiossincrasias, mas aqui ele é particularmente idiossincrático (e em Berlim ‘Variety’ o acusou de enfeitar o terror, alguma coisa assim). Mas acho que o filme seria um contraponto muito interessante a ‘Sem Fim à Vista’. Um vê os erros da Guerra do Iraque a partir da cúpula. O outro filma as conseqüências do ângulo dos soldados. O filme de Morris investiga o caso das torturas contra iraquianos na prisão, virada central de abusos, de Abu Ghraib (ou Ghreib?) e que vazaram por causa de fotos que circularam na internet e chegaram a jornais, revistas e emissoras de TV. Alguém até poderia dizer que aqueles soldados eram monstros, perversos. O que fica claro quando se vê os dois filmes, como um díptico, é que se trata de uma cadeia de comando ‘vertical’. Aquilo não foi um acidente de percurso. Foi a conseqüência natural. George W. Bush não devia ser morto, como na ficção horrorosa que ainda está em cartaz. Devia ser derrotado nas urnas e levado a investigação. Queria ver se aí a história iria fazer justiça à grande ‘visão’ dele.