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Luiz Carlos Merten

16 Junho 2007 | 11h33

Fernando Meirelles já me havia falado maravilhas de Romance, o novo filme de Guel Arraes, que vai ser distribuído pela Buena Vista. É curioso que ele tenha me falado bem do Guel um ou dois dias de o Babenco (Hector) me dizer que adorava Lisbela e o Prisioneiro. Fui ontem ao Rio para entrevistar o Guel. O assunto não era Romance, mas ele me mostrou um promo com cinco minutos do filme. Achei muito legal. Guel fez o seu Tristão e Isolda. O filme conta a história de um casal de artistas, ele, diretor, ela atriz. Separam-se, ela vira estrela de TV, mas o convida para dirigí-la numa adaptação de Tristão e Isolda. Os dois vão levar o projeto aos patrocinadores. Todo mundo é contra. Imaginem – uma história depressiva, em que os amantes morrem no fim. Que espectador vai querer ver isso? É a pergunta que os protagonistas ouvem o tempo todo. É arriscado, senão impossível, avaliar um filme por meio de um promo de cinco minutros, mas o material é forte. Promete. Wagner Moura e Letícia Sabatella fazem os amantes. Andréa Beltrão e Wladimir Brichta formam o outro casal. Letícia era meio tati-bitati na TV, uma mulher-criança. Fez aquela freirinha chata na novela do Manoel Carlos (vi só alguns capítulos, mas não gostava nem um pouco). É preciso começar a vê-la com outros olhos. Letícia já está bem em Não por Acaso, mais mulher. Desabrocha por inteiro em Romance. Guel fez algum teatro, mas é homem de TV e cinema. Ele próprio brinca – diz que é cult na TV e comercial no cinema (pelo menos é o que dizem os críticos). Pedro Cardoso, depois de ver Romance, disse a Guel que, de todos os diretores de sua geração, foi ele que fez o mais belo tributo do cinema brasileiro ao teatro. Isso só aumentou minha vontade de ver Romance. A estréia deve ser somente depois do Festival do Rio. Comédia da Vida Privada, Auto da Compadecida, Lisbela – o que leva um diretor de comédia a mudar o tom? Guel me deu a resposta mais inesperada do mundo – diz que Romance tem mais a cara dele, enquanto homem, que é deprimido, coisa e tal. E o humor, perguntei? É uma técnica que aprendi, respondeu. Romance tem alguns alívios cômicos, mas é um drama soturno. Conversamos sobre Tristão e Isolda e eu falei no filme do Chabrol, Os Primos. Guel conhece Nas Garras do Vício (Le Beau Serge), o primeireo longa do diretor, mas não o segundo. Os Primos, de 1958/59, no alvorecer da nouvelle vague, é o Tristão e Isolda de Chabrol, com direito a música de Wagner e tudo. Guel ficou curiosíssimo. Diz que vai atrás. Não interessa mais como material de pesquisa, mas ele quer ver como Chabrol tratou o assunto. Ah, sim – Jean-Claude Brialy, que morreu há duas semanas, é o protagonsta, com Gérard Blain. A mulher, a Isolda, é Juliette Mayniel, que não fez carreira no cinema. Tinha belos olhos claros, imagino que verdes. Na suntuosa fotografia em preto-e-branco de Chabrol, assim me pareceram.

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