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Luiz Carlos Merten

15 Novembro 2006 | 09h58

Embarco depois de amanhã para a Grécia. Atenas, via Paris, mas o destino final é Tessalônica, que realiza a 47ª edição de seu festival de cinema, abrigando este ano duas homenagens, ao Brasil e a Wim Wenders. Serão exibidos todos os filmes do Wenders e 18 filmes que mapeiam a chamada ‘retomada’. Vai ser legal poder ver em bloco filmes tão importantes do cinema brasileiro atual. Karim Aïnouz vai concorrer com o Céu de Suely e Marcelo Gomes vai mostrar Cinema, Asprinas e Urubus, que estará estreando na Grécia. Os meninos de Walter Salles. O próprio Walter será homenageado em Tessalônica com a apresentação de Diários de Motocicleta, que não é um filme nacional (é assumidamente internacional, ‘latino’), mas o diretor é brasileiro. Esta perspectiva de ir à Grécia está me fazendo viajar, antes mesmo de pisar no avião. Vou contar uma historinha. Meu irmão, Ildo Merten, trabalhava na Varig, em Porto Alegre. No começo dos anos 60, eu era guri e já apaixonado por cinema. Ele trabalhava no sistema de comunicação da empresa. Trabalhava de madrugada. Três ou quatro vezes por semana chegava de manhã com os jornais de Nova York, que recolhia dos aviões, porque sabia que eu gostava de ver. Foi quando ouvi falar pela primeira vez no cinema grego, no indiano. Naquela época, o mundo era outro e os próprios americanos respeitavam mais o direito à diferença. Exibiam muito Satiajit Ray. A primeira vez que ouvi falar na trilogia de Apu foi no The New York Times. E eles amavam o novo cinema grego, Nikos Kondouros, que fez o Ogro de Atenas e As Jovens Afrodites, cujas imagens sensuais foram uma das fantasias da minha infância (e que só vi muito mais tarde, em Paris. Não é ruim, mas na minha imaginação era melhor). O cinema grego, para mim, é Nico Papatakis, com o irregular mas impressionante Os Pastores da Desordem, e Gloria Mundi, que tem a história daquela mulher do diretor que quer fazer um filme sobre a tortura e ela, insanamente, ajuda, torturando mulheres para que ele possa dispor do som exato dos gritos das torturadas. Papatakis, Theo Angelopoulos, claro (cujos filmes são os mais conhecidos do público jovem brasileiro), mas também Michael Cacoyannis, cuja glória repousa, talvez, sobre Zorba, o Grego, com a interpretação genial de Anthony Quinn, mas de quem prefiro a trilogia adaptada das tragédias de Sófocles e Eurípedes: Electra, As Troianas e Ifigênia. A Grécia é o berço da nossa civilização, mas não conheço filmes mais bárbaros. Irene Papas é, para mim, a vingadora-mór do cinema. Não entendo uma palavra de grego, mas o ódio com que ela cospe o texto de Electra e Ifigênia, expressando a dor e a ira da filha e da mãe, são coisas que pertencem ao meu imaginário. E agora a Grécia, Tessalônica, homenageia o cinema brasileiro. Estou louco para ver como eles vão reagir aos nossos filmes.