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Luiz Carlos Merten

24 Fevereiro 2011 | 11h00

Fui dar uma olhada nos comentários e encontrei o da Andrea, que me informa que a cópia de ‘Violência e Paixão’, do meu amado Visconti, está absurdamente boa, no CineSesc. ‘Violência e Paixão’! Embora o título em inglês, ‘Conversation Piece’, seja muito adequado, o italiano me soa melhor (e quer dizer a mesma coisa), ‘Gruppo di Famiglia in Un Interno’. Foi o último grande Visconti, embora ele ainda tenha feito depois ‘O Inocente’, que é bacana. Visconti trabalhava na pós-produção de ‘Ludwig, a Paixão de Um Rei’, quando teve uma trombose. O filme se ressentiu do seu delicado estado de saúde, foi mutilado pelos produtores e só após a morte do cineasta amigos e colaboradores conseguiram recuperar o espendor de ‘Ludwig’. Sei que tem gente que não entende, mas gosto mais de ‘Ludwig’, a versão completa, do que de ‘Morte em Veneza’, outro Visconti que tem reputação muitíssimo superior. Me incomoda o que, para mim, é a autocomiseração de ‘Morte’, enquanto em ‘Ludwig’ Visconti é muito mais duro, traçando a evolução do personagem, o seu mergulho na destruição da loucura, por meio da deterioração de sua arcada dentária, o que fica muito mais claro na versão longa. Curiosamente, por uma questão de ritmo, ela é mais fácil de ver do que a curta, toda truncada pelas mutilações. Entre ‘Violência e Paixão’ e ‘O Inocente’, Visconti teve um derrame, outra trombose, sua condição ficou muito mais delicada e os registros é de que ele, semiparalítico e com problemas de fala, não conseguia se comunicar direito com artistas e técnicos, sentindo-se traído por eles quando a cena não saía exatamente como queria (era um perfeccionista) e, ao mesmo tempo, sem condições de explicar o que era essa coisa que queria. ‘O Inocente’ virou um inferno (para ele e para os outros). Feita essa digressão, volto a ‘Violência e Paixão’. Burt Lancaster, que havia sido o príncipe Salinas, faz o professor. Vive isolado e a sua vida, sua casa, sua biblioteca, suas lembranças, são invadidas pela família de Silvana Mangano, que vem habitar no prédio e faz umas reforma no apartamento. Existem coisas em ‘Violência e Paixão’ que pertencem, talvez, ao domínio da viadagem, mas são coisas que carreho comigo, porque me parecem extremamente reve4ladoras do próprio Visconti. A fugaz aparição de Dominique Sanda é inspirada na mãe de Visconti, Carla Erba, a herdeira da indústria farmacêutica, cuja fortuna viera se somar à decadente casa dos Modrone e Visconti, como Angelica Sedara leva o dinheiro para Tancredi no ‘Leopardo’, selando a união entre a burguesia ascendente e a nobreza em crise. Laurence Schiffano, em seu livro sobre Visconti, faz um relato da fascinação que o menino Luchino tinha pela mãe quando ela, que adorava tule, cobria-se do tecido para ir à ópera. O tule reaparece no vestido de noiva de Claudia Cardinale, outra aparição fugaz, e é um momento que me paralisa. Sobre a imagem de Claudia, a mulher que morreu, o professor abre os braços em sinal de desalento. O que significa exatamente aquilo? Culpa, tristeza? Perda, com certeza. Visconti podia nãso estar 100% quando fez ‘Violência e Paixão’, mas ele está 100% no filme e as cenas ficaram gravadas na minha mente. O sexo, a trilha, a violência. Silvana Mangano, que Visconti sublimara como mãe de Tadzio em ‘Morte em Veneza’, parece aqui uma ave de rapina e era igualmente maravilhosa. Uma puta atriz, uma mulher que começou carnal (em ‘Arroz Amargo’, de Giuseppe de Santis) e cujas carnes foram sendo sugadas não apenas por autores gays, como Visconti e Pier-Paolo Pasolini (em ‘As Bruxas’, ‘Édipo Rei’ e ‘Teorema’). Luigi Comencini também fez isso no admirável ‘Lo Scopone Scientifico’, com Bette Davis e Alberto Sordi, que revi em Paris e é um dos grandes filmes subestimados do cinema italiano (no Brasil, chamou-se ‘Semeando a Ilusão’). Obrigado, Andrea. Mile grazie. Não sei se conseguirei rever ‘Violência e Paixão’, mas é um dos meus mais caros Viscontis, com ‘Rocco’, claro, e ‘Vagas Estrelas da Ursa’. Vão lá, gente, vão lá.