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Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2006 | 12h14

Já disse e vou cumprir. Vou hoje ao CineSesc para assistir a meu primeiro filme do festival Cinema e Direitos Humanos. Quero ver El Astuto Mono Pinochet contra la Moneda de Los Cerdos, às 7 da noite. Só o nome terrível – Pinochet, o campeão de violações de direitos no meu imaginário, pelo sangue que fez correr no Chile – já torna o programa interessante para mim. Mas tem um duplo sensacional no Veneza Cinema Italiano 2, na Sala Lima Barreto do Centro Cultural São Paulo. Às 18 horas, passa Nuovomondo (Mundo Novo) e, às 20h30, Lettere dal Saara (Cartas do Saara). Não deve ser mera coincidência que ambos os filmes tratem do tema da emigração. Emanuel Crialese, no primeiro, filma os italianos que, no começo do século passado, foram ‘fazer’ a América. Vittorio De Seta, no segundo, coloca a Itália no espelho – o país de emigrantes, que mandou gente para os EUA, a Argentina e o Brasil, entre outros países que tiveram emigração italiana muito forte, parece ter-se esquecido disso e hoje trata os migrantes que lá chegam como criminosos. De Seta conta a história de um senegalês que tenta sobreviver na Itália atual. O cara enfrenta todo tipo de dificuldade e recebe algum apoio. Não é aquele inferno das boas intenções que foi Quando Sei Nato Non Puoi Piu Nasconderti, do Marco Tulio Giordana. A língua é uma barreira, mas ao aprender o idioma do país o protagonista de Cartas começa a se distanciar de suas raízes. Gostei do filme do Crialese, que é muito rigoroso, mas não me entusiasmei. Tirando o lado mais fantástico – que é fundamental, reconheço –, o rigor dele não é maior do que o do sueco Jan Troel em Os Emigrantes, feito há mais de 30 anos. Em compensação, gostei muito do filme do De Seta. Nunca tinha visto Banditi a Orgosolo, que ele fez no começo dos anos 60, e foi o responsável por sua fama. Assisti agora na Mostra e foi um choque. Aliás, com todo respeito e interesse pelas novidades que a Mostra deste ano nos trouxe, acho que os dois melhores filmes que vi foram na retrospectiva do cinema político italiano. Achei o Antes da Revolução, do Bertolucci, datado, mas De Punhos Cerrados, do Bellocchio, continua chocante (no bom sentido). Que filme maravilhoso! E logo vi o Banditi, outra maravilha. Banditi é de 1960/61, contemporânreo de O Bandido Giuliano, do Rosi. Exatamente 45 anos depois, De Seta, aos 83 anos, propõe as Cartas. O velhinho é poderoso. Constrói sua ficção como se fosse um documentário. Vejam, e depois me digam se estou errado.