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Luiz Carlos Merten

11 Março 2009 | 14h12

Clint Eastwood pegou muitas vezes em armas para colocar ordem num mundo à beira do desequilíbrio. Mas a idade tornou o velho guerreiro mais reflexivo e o Clint de ‘Grand Torino’ sabe que a solução dos problemas não virá daí. Houve uma cabine do filme agora de manhã. Ele estréia dia 20. Prepare-se. Clint foi indicado para o Oscar pelo filme errado. ‘A Troca’? Por favor… ‘Gran Torino’ conta a história desse velho que, na primeira cena, está enterrando a mulher. Solitário, ele não se comunica com a família, mas entram em cena esses vizinhos chineses, que Walt, a princípio, abomina, mas com os quais descobre, no limite, que possui uma identificação muito maior do que com os filhos e netos. Na justificativa para a Palma de Ouro especial que lhe foi outorgada – em caráter privado –, a organização do Festival de Cannes disse que Clint representa hoje a ponte entre a tradição e a modernidade do cinema norte-americano. “Gran Toruino’, mais do que ‘A Troca’, é a prova disso. O gringo arrogante, atormentado por seus pecados de guerra – na Coréia –, liga-se ao garoto chinês, a quem chama pejorativamente de ‘china’, no começo, e a sua irmã. Clint iniciou sua carreira no western, e inclusive foi astro de uma série de TV, ‘Rawhide’, mas a popularidade veio em consequência do spaghetti western, e de Leone, na Itália. Tenho a impressão que o velho Clint precisou chegar aos 79 sanos, quase octogenário – é de 1930 –, para finalmente fazer seu filme fordiano. O cavaleiro solitário, mais do que nunca, compreende a força da solidariedade e a necessidade da comunidade. Seu personagem tem algo daqueles irlandeses turrões, mas íntegros, que Spencer Tracy interpretou para Ford. O padre é outro personagem maravilhoso, e o garoto… A própria idéia do carro, o Gran Torino 1972, é exemplar, pois transfere o debate de fundo do filme – a ética – para a questão econômica, essencial, não apenas nos EUA, mas no mundo inteiro atual. ‘Gran Torino’ foi o filme de Clint que mais me tocou/agradou em anos. No velho ‘Bronco Billy’, de 1980, ele já criara aquele circo com o picadeiro coberto pela bandeira remendada dos EUA para abrigar os trânsfugas do Vietnã. Em ‘A Conquista da Honra’ (Flag of Our Fathers), foi ao símbolo do heroísmo norte-americano – a imagem dos soldados que levantaram aquela bandeira nas areias de Iwo Jima –, para refletir sobre a crise do heroísmo na América de George W. Bush. Contra Deus e o mundo, gosto mais de ‘A Conquista da Honra’ do que de ‘Cartas de Iwo Jima’, e gosto por causa daquela imagem fugaz do índio derrotado, solto na estrada como cão danado, num mundo (o de Bush Jr.) que transformou a manipulação e a mentira, a falta de ética, em suma, num padrão comportamental. Acho que, agora, mais do que em qualquer outro de seus filmes recentes, o republicano Clint se reconcilia com a ‘sua’ América. Estou escrevendo esse post na corrida, recém saído da exibição do filme. Não queria deixar para depois. Daqui a pouco, participo de uma atividade na ECA, da USP. É quarta, dia de 1001 matérias, principalmente para esta sexta, com tantas estreias, mas eu não posso deixar para depois dizer quão fundo me calou ‘Grand Torino’.

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