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Cultura » ‘Gran Torino’ e o adeus de Clint a Dirty Harry

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Luiz Carlos Merten

15 Março 2009 | 23h48

Validei o comentário de Ana Amélia no post sobre ‘Gran Torino’ e ela enfoca justamente o que lhe parece a ambiguidade de Clint Eastwood e a violência (justificada) que seu cinema parece elogiar. Acho que foi Chokita – teria que voltar aos comentários – quem também reclamou do caráter ‘sacrificial’ que os filmes recentes de Clint vem assumindo. No meu primeiro post sobre ‘Gran Torino’, registrei uma impressão imediata que me calou fundo, o que existe (para mim) de fordiano no filme. Mas, pegando carona na Ana Amélia, acho que será necessário discutir em profundidade o ‘xis’ da questão. Clint volta-se sobre si mesmo e faz a exumação de Dirty Harry, o tira durão de São Francisco que criou pela primeira vez sob a direção de Don Siegel – em ‘Perseguidor Implacável’, no começo dos anos 70 – e que voltou várias vezes em sua carreira, incluindo num filme por ele próprio realizado (‘Impacto Fulminante’). O fantasma de Dirty Harry percorre ‘Gran Torino’ para que o autor possa confirmar sua tese de que todos, mesmo os mais violentos e racistas, podem se redimir. Nos 70, Clint, na pele de dois tiras, Dirty Harry e Coogan, virou o machão que as feministas adoravam odiar. Com o tempo, até elas renderam-se às densidades e sutilezas que foram ficando cada vez maiores nos filmes do xerie de Hollywood. No auge da forma, ele não precisou de mais do que três semanas para fazer ‘Gran Torino’. O filme está sendo o maior sucesso de bilheteria de sua carreira como diretor, no mercado norte-americano. Talvez os que ainda não viram o filme – estreia na sexta, dia 20 – devam parar de ler aqui, porque sou capaz de estragar o que poderá ser uma grande surpresa. Clint diretor filma Clint morto, num caixão. O filme começa e termina com enterros (e com direito a discursos do padre sobre o significado da vida e da morte). Clint morre para se purgar da sua vida violenta e para permitir que os jovens sobrevivam num mundo demasiado hostil para eles. O gesto, repetido em ‘Gran Torino’, de disparar sem revólver nem bala é a chave para se ingressar neste filme que também leva jeito de ficar entre os maiores e melhores do ano. Grande Clint. A forma como ele se despede de Dirty Harry é tão (auto)crítica quanto generosa. Isso vai dar o que falar, tenho certeza.