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Luiz Carlos Merten

09 Agosto 2009 | 18h25

GRAMADO – Olá, vocês já viram que, de Cancun, endereço de meu post anterior, aterrissei diretamente aqui na serra gaúcha. Mas a coisa não foi assim tão direta. Cheguei ontem pela manhã a São Paulo. O vôo atrasou, desencontrei-me do carro do jornal e mal tive tempo de passar em casa. Corri para a HB Producões, onde me esperava Hector Babenco, que recebe a homenagem do Canal Brasil. Sua obra ‘quase’ completa será exibida pelo canal brasileiro, faltando apenas ‘Ironweed’, cujos direitos Babenco e o canal tentaram em vão adquirir. O filme entrou num desses buracos negros – a empresa produtora faliu, alguma coisa parecida. Simultaneamente com a retrospectiva do Canal Brasil, a obra de Babenco começa a sair em DVD pela Europa e, aí sim, a empresa ainda não desistiu de incluir ‘Ironweed’ na série, continuando a batalhar pelos direitos. Depois da entrevista, passei em casa, almocei com minha filha e genro – a propósito, a Lúcia está com blog próprio, cujo endereço ainda não sei, mas se vocês tiverem curiosidade acho que não será difícil localizar na rede – e corri para Paulínia, para assistir ao primeiro concerto de Zubin Mehta à frente da Filarmônica de Israel aqui na sua atual temporada brasileira. O que foi aquilo? O primeiro concerto de Paulínia privilegiou Richard Strauss e foi uma coisa maravilhosa, a começar pelo ‘Don Juan’ do compositor. Gostei um pouco menos, é verdade, do bis, formado pelos standards da orquestra, mas confesso que tenho problemas com bis. Não sei quem inventou isso de que concerto e show tenham de ter bis. A gente vai no teatro e no cinema, acabou, bye-bye. Fico meio exasperado quando o bis não termina e, em geral, não vou sozinho, tenho de ficar esperando até terminar. Sei que, finalmente, depois de duas horas de estrada na volta e uma noite ‘desmaiada’, mais do que dormida – estava morto de cansaço -, enfrentei mais vôo e estrada, mas estou aqui em Gramado, onde começa daqui a pouco o 37º Festival do Cinema Brasileiro (e Latino). Está chovendo e a previsão, acabo de ler no quadro de informaçoes do hotel, é de que permaneça assim boa parte da semana. Espero que a meteorologia se engane. Frio e chuva formam uma dobradinha excessiva. Estou cheio de expectativa pela programação dessa noite de abertura. O festival resgata ‘Memórias do Subdesenvolvimento’, clássico do cinema latino-americano que revi no ano passado, numa versão zero bala, no Festival Latino do Memorial, aí em São Paulo. Na sequência, Sérgio Silva inicia a competição com ‘Quase Um Tango’, seu novo longa com Marcos Palmeira. Marquinhos estava ótimo peleando com o Diabo naquele filme de Moacyr Goes, ‘Ojuara’, Sérgio dirigiu ‘Anahy de las Misiones’, pelo qual tenho um carinho especial, mas que já desisti de tentar fazer que as pessoas compartilhem comigo. A cultura regional gaúcha, com suas raízes comuns com o Prata, parece ser uma coisa muito difícil de fazer que algumas pessoas aceitem. O festival também homenageia hoje Dira Paes, grande atriz brasileira de cinema que só foi descoberta pelo Brasil ao fazer TV (na Globo). Aliás, é bem oportuno ter citado a Globo. Gramado havia virado o tapete vermelho de globais, não que eu tenha alguma coisa contra eles, mas esse festival havia virado sinônimo de mundanidade, pouco ou nada tendo a ver com cinema. A nova curadoria de José Carlos Avellar e Sérgio Sanz busca justamente restaurar a credibilidade de Gramado. Tirando o fato de que alguns filmes não são inéditos, já foram premiados em festivais (‘Corumbiara’) e até exibidos na TV (‘Canção de Baal’, pelo Canal Brasl), a seleção deste ano, nacional e internacional, promete e alguns títulos são de obras miúras até para festivaleiros de carteirinha. Tenho cá a impressão de que Avellar e Sanz, em troca da independência na seleção, estão aceitando o compromisso de homenagens que visam garantir a visibilidade do tapete vermelho que tanto interessa a Gramado, como centro de turismo. Afinal, uma coisa é premiar Ruy Guerra com o Kikito de Cristal e outra é o prêmio de carreira para Xuxa, o prêmio Prefeitura de Gramado, não que ela não mereça. Xuxa, afinal, é gaúcha, recordista de público (mesmo que seus últimos filmes não sejam lá essas coisas). Enfim, a maratona vai recomeçar. Espero voltar ainda hoje com as novidades da inauguração do 37º festival.

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