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‘Gracias a la Vida’

Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2011 | 14h19

Olá, aqui estou depois de uns quantos dias – na verdade, só dois – sem dar notícias. Espero que a virada tenha sido boa para todos e que tenhamos um 2011 repleto de bons filmes (e DVDs). Na sexta, assisti pela TV a meu último filme de 2010. Foi na TV paga, ‘O Poderoso Chefão 2’, do Coppola. Que que é aquele filme, meu Deus? Queria parar de ver para ir logo para o meu réveillon, mas não dava. O olho estava grudado na tela. O jovem Pacino! Existe coisa mais terrível do que a transformação no rosto dele, quando ouve de Diane Keaton a revelação de que ela praticou aborto, porque não queria gerar mais um filho na tradução monstruosa  da ‘família’ (a Máfia). Quando ele salta e dá aquela bofetada que a derruba, eu confesso que tenho um troço. Há que desconfiar quando Coppola diz que não existe solução fora da família em ‘Tetro’. Não há coisa da qual se deva desconfiar mais do que da família num filme de Coppola. Quando o ‘Chefão 2’ terminou, demorei um pouco para entrar no clima de festa do fim de ano. É verdade que, em casa do Dib Carneiro, repleta de amigos, a TV estava ligada no Show da Virada, na Globo. Aquilo não ajudou. Não era só brega, era ofensivo.  Não sei quantos astros e estrelas da MPB, algumas duplas disparatadas e mais putaria embutida do que em pornô da série das ‘Brasileirinhas’. Não estou bancando o puritano – quem, eu? Mas toda aquela gente canta igual, fora duas ou três exceções. Tudo ali era clonado, plastificado, medíocre e os figurinos, os gestos, era tudo em clima de liberou geral. O horror, o horror. Ontem, fui rever o belo ‘Mine Vaganti’, de Ferzan Ozpetek, que ganhhou o título de ‘O Primeiro Que Disse’. Título de m…, que não dá ideia do que é o filme. Havia visto o título da críotica de Inácio Araújo na ‘Folha’. Lá vou eu implicar com, meu bom amigo Inácio. Ele reclama da obviedade dos personagens. Eu retruco, no ‘Caderno 2’ de amanhã que existem deois filmes em ‘Mine Vaganti’, um que parece óbvio e outro muito mais riucxo. A diferenmça está no olhar de quem vê, de quem consegue ver. Tenho entrevistado Ozpetek algumas vezes – ao vivo, no Festival do Rio, por telefone (a maioria). Entrevistei-o na quinta à tarde. Estava em Istambul. No meio da entrevista, houve uma gritaria, a maior algazarra do outro lado da linha. Estavam chegando Riccardo Scamarcia, o astro de ‘Mine Vaganti’, e sua bela mulher, Valeria Golino. Foram passar o réveillon em casa de Ozpetek, que não se desliga da sua Istambul natal. Adoro o desfecho de ‘O Primeiro Que Disse’, é uma coisa que me emociona muito, aquela dança. O amor impossível daquela avó, que tem seu equivalente no amor da garota por Tommaso, o protagonista. Os amores impossíveis são os que duram para sempre, diz a avó. O baile me remete ao final de ‘Um Amor Quase Perfeito’, quando aquela gente que tinha tão pouco canta ‘Gracias a la Vida’, de Viuoleta Parra (que prefiro na voz de Isabel Parra, a coisa mais linda do mundo – ‘Perfecto distingo/lo negro del blanco/y en alto cielo, su fondo estrellado/y en multitudes al hombre que yo amo’). Imagino que Inácio deva achar aquilo óbvio. Eu acho uma das minhas grandes emoções no cinema, alguma coisa que realmente vale ver para viver.