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Luiz Carlos Merten

20 Maio 2012 | 13h27

CANNES – Fui ver o Hong Sangsoo, ‘In Another Country’, que nem sabia ser com Isabelle Huppert. É o primeiro dos coreanos da competição deste ano, porque vai haver também o IM Sangsoo. Vou jogar minhas fichas no próximo, porque este não deu. Meu dia incluiu a coletiva de ‘Amour’, do Michael Haneke, em que os intérpretes dos velhinhos do diretor estiveram adoráveis. Inversamente à situação do filme, achei Emmanuelle Riva rija, enquanto Jean-Louis Trintignant me surpreeendeu pela devastação. Ele entrou na sala praticamente carregado, caminhando com dificuldade. Mas a mente está lúcida. Acho que ninguém conseguie se autodefinir como cinéfilo senão amar Emmanuelle Riva dizendo aquele texto de Marguerite Duras em ‘Hiroshima, Meu Amor’, de Alain Resnais. Amanhã, teremos aqui em Cannes o próprio Resnais, com seu novo filme. Emmanuelle quase não fala em ‘Amour’, em que sua personagem sofre dois derrames sucessivos e se degrada, fisicamente. A voz permanece intacta e eu fechava os olhos para ouvi-la. Parecia que recomeçar., daquele jeito reitmado – ‘Oui, je tu vu à Hiroshima’, respondendo à afirmação inicial de Eiji Okada, ‘Tu n’as rien vu à Hiroshima’. Isabelle Huppert, que faz a filha, presente na mesa, lembrou quando trabalhou com Emmanuelle no teatro em ‘Medéia’, em Avignon. Fecha-se um ciclo aqui em Cannes, 2012. O reencontro de Emmanuelle e Resnais, mesmo que seja em filmes diversos da competição, e o filme de encerramento será ‘Thérèse Desqueyroux’, em homenagem ao falecido dirertor Claude Miller. No começo dos anos 1960, Emmanuelle, como outra Thérese Desqueyroux, foi melhor atriz em Veneza. Há uma cena muito boa em ‘Amour’. Trintignant tenta apanhar um pombo que entrou na casa. Vira metáfora da relação dele com a mulher. Tudo o que faz, isolando a mulher, afastando a filha, ele faz por amor. A irracionalidade (destrutiva?) do amor. Trintignant contou,. não sem humor, que Haneke queria dirigir o pombo e ele não correspondia. ‘Não era bom ator, como eu não sou. Ficamos dois dias só nessa cena e foi preciso convocar outro pombo.” Era uma blague, mauvais acteur. Ele é extraordinário no papel. Aproximei-me da mesa, no fim da entrevista, para me curvar perante Emmanuelle Riva. Ela não deve ter entendido nada, mas trocamos um olhar. Há 50 anos ‘Hirtoshima, Meu Amor’ me assombra. É um de meus filmes preferidos. Quando imaginei que estaria assim, a um passo de Emmanuelle Riva? O cinema tem me permitido realizar esses sonhos que nem sabia ter e, por isso agradeço – à vida. Imasginem que saí dali para uma entrevista com Apichatpong Weerasethakul, que apresenta aqui, fora de competição, ‘Mekong Hotel’. Outra históriade recordações de infãncia, de vampiros (em vez de fantasmas) como em ‘Tio Boonmee’. Api, ‘Uncle Joe’, falas muito de budismo, hinduismo. Os fantasmas fazem parte da sua realidade, como do imaginário dos tailandeses. Já o entrevistei várias vezes e elke parece dada vez mais sereno. Num mundo de gente estressada, esse é um mistério maior do que aquele que o clima de seus filmes sempre propõe, seja numa floresta, como em ‘Mal dos Trópicos’, ou num rio, aqui.