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Cultura » Gotas d’água em telhados escaldantes

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Luiz Carlos Merten

26 Abril 2007 | 15h37

RECIFE – Achei muito bonito o curta mineiro A Chuva Nos Telhados Antigos, de Rafael Conde. Mas é o tipo do trabalho em que, para mim, o diretor terminou errando a mão. Rafael conta a história desse casal que se amou no passado. Separaram-se, ela se casou de novo e agora se reencontram quando ele reaparece, inesperadamente, na casa dela. Gosto muito desse tipo de situação dramática. Uma das grandes cenas do cinema, para mim, é o final de Clamor do Sexo, de Elia Kazan, quando Natalie Wood reaparece na vida de Warren Beatty e descobre o cara f… em que ele transformou. Diante de A Chuva nos Telhados Antigos, não lembrei de Kazan (agora é que o estou fazendo), mas fiquei pensando se Desencanto, de David Lean, não será um dos filmes favoritos do diretor. Rafael Conde mostra como é difícil a reaproximação. Os diálogos, os movimentos, a tensão que os atores (Mônica Ribeiro e Alexandre Cioletti) transmitem tão bem. Mais importante do que o que eles dizem é o que calam, o que mantêm secreto, mas que os olhares, os gestos terminam por trair. Achei muito maduro. E aí o filme termina, inconclusivo ou, talvez, conclusivo como a vida. As pessoas se dão tiau, até um dia, o que é muitas vezes uma forma de dizer nunca mais. Entram as imagens de trilhos, como se o cara estivesse partindo de trem. Fiquei com a sensação de que A Chuva nos Telhados Antigos seria um episódio extraviado de Descaminhos, o longa da empresa mineira Camisa Listrada que passou no É Tudo Verdade. Estava adorando, mas Rafael continua e propõe uma fantasia ou realidade, depende do espectador. Entram imagens do casal, na mesma sala, amando-se. Tem gente que acha que ele perdeu e trem e voltou. Eu acho que é delírio, um desejo reprimido e, por isso, as cenas não me agradam. Esse desejo já estava implícito nas cenas anteriores, não precisa ser tornado explícito. Era disso que falavam. O que se perde numa relação. A saudade das coisas mortas, mas que permanecem vivas, ou das coisas vivas que vão desaparecendo, como acreditava Truffaut (e que ele filmou genialmente em Jules e Jim/Uma Mulher para Dois). De alguma forma, acho que Rafael Conde terminou banalizando o próprio trabalho, mas a primeira parte é ótima. E os atores… Tiro o meu chapéu para Mônica (que faz uma psiquiatra no concorrente longo de Minas, Cinco Frações – que eu, erradamente, chamei de Fragmentos – para Uma Quase História) e Alexandre Cioletti. Cabra bom…