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Luiz Carlos Merten

08 Abril 2012 | 12h33

PORTO ALEGRE – Tenho revisto alguns filmes aqui em Porto. ‘Xingu’, ‘Titanic’, a versão 3-D. Gosto muito do filme de Cao Hamburger, que me emociona de uma forma muito particular. Um épico intimista, propondo o que não deixa de ser uma tragédioa familiar, a história dos irmãos (Orlando e Cláudio Villas Bôas) que excluem o terceiro, Leonardo, da sua utopia e ele morre, o que acirra acusações e ressentimentos. Neste processo,. Cao mantém-se fiel a seu tema do exílio interno, atraído por personagens que, de alguma forma, amam o Brasil mais que são amados pelo País, como os de ‘O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias’. Me perturba muito o plano final, o encontro com o guerreiro Kreen, de uma beleza de cortar o fôlego. Ele olha para a câmera, sustenta um olhar longo e fixo no qual se pode ler… O quê? É um plano tão enigmático, para mim, como a célebre tomada de Greta Garbo fitando o horizxonte no convés do navio em ‘Rainha Cristina’, de Rouben Mamoulián. O que ela pensa? Cabe a nós, o público, decifrar o enigma. O índio não olha com medo nem espanto os primeiros brancos que vê. Poderia ser um olhar acusador, mas também não é, porque logo entra a legenda explicando que, dos 600 Kreen localizados pelos Villas-=Bôas, só 79 sobreviveram e foram levados à reserva do Xingu., O parque é uma referência nacional e internacional, o legado dos Villas-Bôas é inestimável, mas há, ali, na visão do diretor, de alguma forma ,a confissão de um doloroso fracasso, pelo que não pôde ser evitado. O olhar altivo talvez queira provoicar nosso sentimento pelo que foi perdido, pelo que não foi evitado. Não apenas a fissura familiar, mas todas aquelas mortes na floresta… Gosto demais do filme e de seus atores, o trio João Miguel/Felipe Cazmargo/Caio Blat. É bem mais que posso dizer da versão em 3-D de ‘Titanic’. Esperava alguma coisa grandiosa, afinal James Cameron é fera no quesito tecnologia (e não apenas nele). Nem Cameron conseguiu resolver uma coisa que me incomoda muito no formato. Nas tomadas à distância, há, por assim dizere, um achatamento da figura humana. A cena em que Kate Winslert, Billy Zane e Frances Fisher sobem pela escada do navio, logho no começo, me derrubou. É um horror, ficou pior que no original, a Frances, ex-senhora Clint Eastwood, parece uma anã, me lembrou a Rainha Vitória, filmada por Billy Wilder, de ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’ (mas lá o efeito era para ser cômico). As cenas impactantes em 2-D não ficaram nem um pouco mais impressionantes e eu confesso que comecei a me irritar. Sempre gostei do filme, mas ontem os comentários ‘sociais’ de Cameron e os clichês de que ele se vale foram me parecendo muito rasos para tanta ambição. Me senti roubado, Paguei pelo que não tive e fiquei me perguntando até que ponto o grande Cameron, tendo batido o próprio recorde – Titanic’ era o filme de maior faturamento, com US$ 1,8 bilhão, mas foi superado por ‘Avatar’, com US$ 2,7 bilhões -, não está simplesmente querendo aumentar os números do seu blockbuster anterior? E, gente, aquela Celine Dion é de cortar os pulsos. Menos, menos… Preciso ver alguma coisa boa urgentemente. Vou ver o que o circuito, especialmente o alternativo, de Porto me oferece.