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Luiz Carlos Merten

04 Junho 2008 | 09h30

Havia prometido que não ia mais falar de ‘Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal’ sem antes rever o quarto filme da série, o que fiz ontem no fim da tarde, numa sessão no Arteplex – com pouca gente na platéia, vale acrescentar. Todo mundo me fala que ‘A Caveira’ já despencou nas bilheterias norte-americanas, substituído por ‘Sex and the City’, que vou ver hoje (depois de ‘Agente 86’). Isso seria a prova definitiva de que a nova aventura do herói protagonizado por Harrison Ford é ruim. Quero dizer que agora, com mais calma, vi outro filme. Finalmente as coisas se encaixaram e fizeram sentido para mim, traçando um arco que vai de ‘Encontros Imediatos de Terceiro Grau’ e ‘ET’ até a trilogia ‘O Terminal’/’Guerra dos Mundos’/’Munique’, porque Spielberg não situou a ação em 1957 somente por causa da terceira idade do astro Ford, mas também porque isso lhe permite retomar o discurso de George Clooney em ‘Boa Noite e Boa Sorte’, utilizando-se do macarthismo para falar, indiretamente, da administração George W. Bush. Seria fácil demolir ‘O Reino da Caveira’ – de cristal, ainda por cima – invocando a verossimilhança histórica ou geográfica. Sei que tem gente que se irrita porque o personagem pega um barco na Amazônia e duas curvas do grande rio, depois, está caindo nas cataratas de Iguaçu. Acho divertido – só o que me faltava cobrar este tipo de realismo num filme habitado por alienígenas. A questão é que a aventura e o espetáculo formam um discurso coerente (e até crítico), substituindo os tradicionais vilões nazistas por soviéticos para refletir sobre a paranóia norte-americana. E o final, que havia achado anticlimático, agora eu gostei. Acho que Spielberg realmente está se despedindo de Indy. A cerimônia do chapéu, se transferido para Shia Labeouf, indicaria uma vontade de prosseguir com a aventura. Achei lindo o sorriso da Karen Allen quando ela diz para Indiana que, com certeza, ele teve outras mulheres no período em que estriveram afastados e Indy se levanta dentro do carro em movimento para a frase definitiva – ‘Sim, mas todas tinham o mesmo problema, não eram você.’ Acho que foi a declaração de amor mais bonita que vi recentemente no cinema, e o fato de ter assistido a ‘Jogos de Amor em Las Vegas’ pela manhã talvez tenha me ajudado a perceber isso. Devo ser um romântico, fazer o quê? O herói casado, com a vida regularizada, de volta à cátedra, retoma o chapéu que lhe cabe por direito e é uma idéia legal. Não quero convencer ninguém de que o filme é bom. Só acho que as coisas fazem mais sentido do que parecem, e isso vale para o racha dos ‘transviados’ com os militares na abertura e para aquele plano – que adorei – quando, no interior do hangar, a explosão da caixa ‘libera’ a Arca perdida do primeiro filme, o que significa que este ‘Indiana’ realmente vai fechar um ciclo. Entender o Bressane é fácil. Não tem muita sutileza, está tudo muito explícito no uso que ele faz da palavra (e dos signos) em ‘Cleópatra’. Difícil é ver como a ‘política dos autores’ se aplica aqui…