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Gostei, não gostei

Luiz Carlos Merten

25 Julho 2010 | 12h59

Há dias estou para escrever alguma coisa sobre ‘O Grande Cerimonial’. Fui ver a montagem de Reginaldo Nascimento para a peça de Fernando Arrabal na sala experimental do Teatro Augusta. Adorei. ‘O Grande Cerimonial’ despede-se hoje e, portanto, é sua última chance de ver o espetáculo, que achei muito interessante. Confesso que não conheço Arrabal tanto quanto gostaria. Não gosto de ler teatro – ainda não li a adaptação que meu amigo Dib Carneiro fez de ‘Crônica da Casa Assassinada’, de Lúcio Cardoso, a pedido de Gabriel Villela e que o próprio Gabriel e Antônio Gonçalves Filho consideraram sensacional –, como, no fundo, também não gosto de ler roteiros. Michelangelo Antonioni dizia que eram páginas mortas, ferramentas para que o diretor construa todo um universo. Enfim… Não vi a célebre montagem de Victor Garcia para ‘Cemitério de Automóveis’ e acho que a única peça que vi montada de Arrabal foi ‘O Imperador da Assíria’. Mas sempre me interessei pelo conceito do teatro pânico – que o próprio Arrabal dizia não saber do que se trata – e admirava a independência do dramaturgo, que esculhambou com todo mundo (a esquerda, Fidel, o PC espanhol, mas também a direita). Há essa ligação forte entre Arrabal e o cinema de Alejandro Jodorowski – que adaptou ‘Fando y Liz’ – e, assistindo a ‘O Grande Cerimonial’, eu tinha a impressão de estar revendo um fragmento de ‘Santa Sangre’, que permanece como meu Jodorowski favorito. Um homem cercado de bonecas do tamanho de mulheres adultas. Um corcunda que se considera horrível e que ama e odeia com igual intensidade, usando essas bonecas para exorcizar sua relação doentia com a mãe manipuladora – tudo a ver com o ‘Santo Sangue’. Delírio psicótico ou sexual, ‘O Grande Cerimonial’ remete ao surrealismo, e não só. Me impressionou especialmente a preparação do elenco, tanto física quanto verbal, e o tour de force de Alessandro Hernandez merece todos os elogios. O cara é f… Segura a onda física, a corcunda monstruosa, mas o domínio da voz não é menos impressionante. Tudo bem que a sala é pequena, cria um clima íntimo, mas a montagem é vigorosa e eu, pelo menos, viajei nas fantasias de amor e ódio entre mãe e filho e na possibilidade de superação proporcionada por essa outra mulher, que vai desconhecer o mal e a feiúra, oferecendo uma alternativa a Cavanosa (o protagonista). É muito mais do que posso dizer sobre ‘Anatomia Frozen’. Fui ontem ao Teatro Imprensa e tomei um susto. Nunca vi a sala principal daquele teatro tão cheia. Sentei lá atrás, e o sujeito na minha frente, ao dormir, caía para a esquerda. Duas fileiras à frente, outro cara também dormia e caía para a direita, o que fazia com que as cabeças dos dois fechassem meu ângulo de visão e obrigassem a verdadeiros contorcionismos para conseguir enxergar o palco. Por um lado, foi bom, porque em momento algum sequer pisquei, que dirá dormir, mas detesto ficar me mexendo na poltrona (exceto no cinema, quando me projeto nas cenas de lutas e brigo com a tela, mas aí é diferente). Havia adorado o ‘Agreste’ do Márcio Aurélio, mas confesso que não tive o mesmo encantamento com este ‘Agreste 2’, que papou os prêmios mais importantes de teatro em São Paulo, inclusive da APCA. Emprego ‘Agreste 2’ num sentido muito particular. O texto de Bryony Lavery, diz o programa, faz a anatomia da violência e discute a psicopatia social por meio de três narrativas que se entrelaçam. Uma psquiatra que escreve uma tese sobre assassinatos em série, um pedófilo condenado à prisão e a mãe de uma de suas vítimas. O texto é árido e a montagem, naquele ambiente asséptico, cirúrgico, todo branco, acentua essa aridez, daí o ‘Agreste 2’. Gostaria de ter gostado, mas achei mais respeitável do que propriamente denso. As cenas da psiquiatra com o pedófilo não me interessaram minimamente e acho que só as da mãe com o assassino da filha me produziram alguma emoção. Se buscasse a fundo, até creio que conseguiria encontrar certas conexões entre as duas montagens. Só quero dizer que achei toda essa premiação de ‘Anatomia Frozen’ excessiva. Inversamente, pela excelência de seu trabalho, gostaria de ter visto Alessandro Hernandez reconhecido, pelo menos com uma indicação para o Shell.