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Luiz Carlos Merten

31 Dezembro 2011 | 12h22

Muita gente quer saber se gostei de ‘Millenium – Os Homens Que não Amavam as Mulheres’. Sim, muito. Tive o privilégio de conversar com David Fincher, em Londres. Participei de uma coletiva, uma mesa redonda e tive uma individual com o diretor. Falando sobre sua adaptação da série de livros de Stieg Larsson, ele disse que não quis fazer outro filme sobre serial killer. O criminoso está lá, o formato é de thriller, mas a força do filme vem da análiase que Fincher faz da relação entre homem e mulher, entre o personagem de Daniel Craig e a garota com a tatuagem do dragão, Rooney Mara. Idade, cultura, classe social, até sexualidade – ela é bissex -, tudo deveria separá-los, mas eles têm a sua história, que é linda, e triste. Achei ‘Millenium’ um dos filmes mais bem feitos que já vi e a trilha – Fincher, com sua experiência de videoclipes, selecionou cada música – é excepcional, totalmente integrada ao relato. Estamos no finalzinho do ano, a cerca de 12 horas de 2012, e o período é de listas. Ainda pretendo publicar a minha com os destaques do cinema em 2011. Na maioria das listas que tenho visto, en passant, ‘A Árvore da Vida’ está sempre presente. Não preciso insistir – vocês sabem – que não gosto do filme de Terrence Malick, que me parece uma fraude, ou quase. Tudo o que ouço – não li muita coisa – fortalece minha impressão, mas li o que Enéas de Souza escreve na ‘Teorema’ que me foi enviada pelo pessoal de Porto Alegre. Enéas é um raro (o único?) crítico que me acrescenta alguma coisa porque ele nunca me passa a sensação de que quer provar seu ponto de vista, e que é o certo. Tem dois ou três infelizes, com o pé na psicanálise, que quando tento ler me fazem chorar – e que deviam ir correndo para o divã, para ver se amadurecem. O que me fez ler o texto do Enéas foi a frase inicial. Ele diz que ‘A Árvore da Vida’ é um daqueles filmes que você ama ou odeia. No caso dele, Enéas não só amou como achou muito chato. E desenvolve sua visão do filme, que constroi um pensamento cinematográfico sobre os EUA desde os anos 1950 até hoje. Bom, isto é claro, mas e daí? Terrence Malick associa a ‘americana’ com uma visão cósmica do universo, flertando com o Kubrick de ‘2001’, só que com dinossauros no lugar dos macacos. É uma coisa complicada de explicar, mas vocês vão perceber quando virem ‘Millenium’. Fincher manteve a ambientação sueca da trama, mas é lógico que ele está querendo falar sobre a ‘América’.  O filme dele é sobre a confiança – tem tudo a ver com a era Obama – e me lembrou muito o de Malick. Como, por que? Pela luz. A iluminação propõe uma cosmogonia sagrada e profana que remete à graça cósmica, mais, para mim, do que o filme de Malick. E o curioso é que, através de Fincher, redescobri um filme que amei, mas do qual me havia perdido, o ‘Luz Silenciosa’, de Carlos Reygadas. Sei que tudo isso deve estar parecendo muito cifrado e o que mais me desconcerta é a confissão que vou fazer agora. Amo os filmes que tratam da relação entre pais e filhos, até porque sou pai e, por meio deles, coloco em discussão, em foro íntimo, a relação com minha filha, que é a pessoa a quem mais ano no mundo. Em princípio, um filme sobre um filho que, finalmente, compreende seu pai deveria ter me deixado chapado, mas o de Malick me deixou a impressão de ser doente. Amo a obra-prima malade de Alfred Hitchcock, como François Truffaut se referia a ‘Marnie’. Por mais que me force a gostar de ‘A Árvore da Vida’, a pretensão do filme me produz constrangimento. É muito barulho para o pouco que consigo reter da ‘americana’ de Malick.