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Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2008 | 11h30

Sábado, depois da coletiva de apresentação do júri da Mostra – e dos filmes pré-selecionados pelo voto popular para concorrer ao troféu Bandeira Paulista –, fui ver dois filmes. O primeiro deles foi ‘El Greco’, de Iannis Smaragdis, no Cine Olido. Cito a sala em que foi exibido porque vou bastante àquele cinema e sei que ele possui um público sui-generis, que não é exatamente, ou não é nem de longe, o dos freqüentadores habituais do evento. Como o ingresso é de graça, ou custa R$ 1 ou R$ 2, vai um público bem popular, gente que só quer uma poltrona para dormir em paz (e ronca) ou então que fica cinco minutos e sai reclamando quando o programa não lhe cai bem. Muita gente saiu no meio da sessão e como a produtora estava presente, e se sentou nas primeiras filas, vi que teve um pessoal que saiu reclamasndo e falando alto em direção ao local em que ela estava sentada. Muita gente ficou, e até aplaudiu no final. O filme é recordista de público na Grécia, tendo feito mais de um milhão de espectadores num país de 11 milhões de habitantes. Tinham me falado muito mal de ‘El Greco’, mas eu, quando desembesto – é gauchismo – que quero ver não desisto por nada, e vou. Fui. Ao contrário do que disse meu amigo Ubiratan Brasil, o Bira, que eu ia perder tempo numa Mostra que tem tantas ofertas, não perdi meu tempo. O filme permite certo paralelismo com ‘As Sombras de Goya’ e, embora inferior ao de Milos Forman – que achei um dos melhores do ano passado –, me pareceu bem interessante. Ambos tratam da oposição de grandes pintores ao poder institucional e religioso na Espanha, e nos dois o conflito principal é com o grande inquisidor –interpretado por Javier Bardem no filme de Forman. Aliás, vocês sabem que não tenho muito apreço por ‘Quando os Fracos não Têm Vez’, dos irmãos Coen, que deu o Oscar de coadjuvante para Javier Bardem, mas tenho cá comigo que o Padre Lorenzo de ‘Goya’ foi o laboratório de Bardem para fazer aquele assassino bizarro. É uma opinião muito pessoal, reconheço. ‘El Greco’ trata da luta do artista pela luz. El Greco transforma pessoas comuns em santos e reduz santos a pobres pecadores, tudo isso graças ao mistério da luz. Quando o inquisidor o acusa de blasfêmia, ele diz que toda arte é blasfema, porque o artista ousa recriar o mundo concebido por Deus (pela religião) e El Greco vai além – dizendo que a luz de seus quadros é imortal, ao contrário da luz das fogueiras em que a Inquisição queima seus condenados (e que projetam o inquisidor numa escuridão cada vez maior). Não creio que seja um grande filme – o de Forman dá de dez -, mas me pareceu muito bonito, e não apenas plasticamente, pela recriação de quadros famosos. Pode ter pesado um pouco a visita que fiz em janeiro, em Toledo, ao museu que abriga as obras-primas de El Greco, entre elas ‘O Enterro do Conde Orgaz’, que Iannis Smaragdis reconstitui com tanta exatidão. Quando El Greco diz a grande frase – que ele pinta para consolar, e essa é a função da arte –, já estava fisgado. Justamente essa frase, que consta das cartas de Rilke para um jovem poeta, já foi citada N vezes aqui no blog. Não vou dizer que ‘El Greco’ seja um grande filme, mas não perdi meu tempo, não. Gostei.