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Luiz Carlos Merten

21 Julho 2008 | 15h39

WROCLAW – Tive uma programação bem intensa hoje. Pela manhã, descobri que Lee Kang-sheng, o ator de Tsai Ming-liang e diretor de ‘Help Me Eros’, está hospedado no mesmo hotel que eu. Apresentei um filme da retrospectiva brasileira – ‘Carlota Joaquina’, de novo -, dei algumas entrevistas (como curador) e fui ver o filme do Sheng. Varios filmes que vi aqui em Wroclaw – ‘Les Amours d’Astrée et Céladon’, ‘Beyond the Years’ e ‘Sol Negro’, tratam do amor eterno, do amor puro. ‘Help Me Eros’ segue o caminho inverso. Os personagens precisam baixar ao nivel mais sórdido do sexo em busca de uma transcendência. Não morri de amores pelo filme, que já passou na Mostra, mas achei bem interessante e certamente mais atraente do que a visão ‘cristã’ – a ditadura da culpa – de Zanussi. À tarde fui ver ‘Possessão’ e tive outra decepção. Não sabia exatamente o que esperar do filme de Andzej Zulawski, mas o que encontrei não me satisfez. O relato de um casamento em desintegração é assombrado pelo fantástico e, no começo, o corpo estranho que ‘possui’ Isabelle Adjani pode muito bem ser uma projeção de desejos reprimidos. No final, o fantástico parece que assombra o próprio diretor e o seu casal é destruído para que ‘duplos’ gerados pelo monstro assumam seus lugares. Não gostei e a histeria de Isabelle, em desempenho premiado em Cannes, me deixou pasmo (no mau sentido). Na seqüência, fui rever ‘Gomorra’, de Matteo Garrone, que os italianos achavam que ia papar a Palma de Ouro em Cannes, em maio, e ficaram furiosos quando o filme ganhou o Grand Prix do júri. ‘Gomorra’ tem um lado ‘Cidade de Deus’, mostrando como opera a Camorra, a Máfia napolitana, recrutando jovens para atividades criminosas que incluem o controle das drogas e da indústria do vestuário clandestino, as imitações de grifes famosas. Não havia gostado muito do filme, mas tenho de reconhecer que Garrone, nascido em 1968 e diretor desde 1996, constrói cenas poderosas que explicam sua fama de ‘enfant terrible’ do cinema italiano atual. E o filme dele tem Toni Servillo, ator-fetiche de Paolo Sorrentino, que também estava em Cannes com ‘Il Divo’. É o pelamor de Deus. O prêmio de interpretação masculina para Benicio Del Toro, o Che de Soderbergh, foi a grande cagada – me desculpem a vulgaridade – do júri presidido por Sean Penn. Servillo podia ter ganhado tranqüilamento pelo chefe mafioso de ‘Gomorra’ como pelo Giulio Andreotti de ‘Il Divo’. Com os dois filmes, ele deve ter dado um nó muito grande na cabeça dos jurados, porque são criações tão fortes como não se vêem com freqüência – só muito raramente – na tela. Vou agora a uma recepção para Roger Donaldson, que está aqui participando da retrospectriva do cinema neo-zelandês – e com ‘The Bank Job’, que adorei. Na seqüência, quero ver ‘Centochiodi’, de Ermanno Olmi, o mestre de ‘A Árvore dos Tamancos’. Olmi já anunciou que este será seu último filme narrativo (para cinema). Ele quer fazer agora só documentários e filmes experimentais para TV e circuitos especiais. Como perder? Afinal, além da ‘Árvore’, premiado com a Palma de Ouro, nos anos 70, ele fez também ‘Il Posto’ e ‘A Lenda do Santo Beberrão’. Gosto muito do rigor de Olmi, que tem alguma coisa de Bresson, na sua busca da graça (no sentido teológico). Vamos lá!

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