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Cultura » Godard é tudo!

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Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2007 | 14h06

Cheguei de férias e demorei um pouco para me atualizar com o que ocorria nos cinemas da cidade. E não é que tem uma retrospectiva Jean-Luc Godard na Sala Cinemateca? Vai até dia 11, mas não tenho a programação à mão para comentar o que será possível ver hoje, ou amanhã. O jovem blasé, que vai atualmente ao cinema, por mais cinéfilo que seja, não consegue imaginar o que eram os filmes de Godard nos anos 60. No Rio, sempre ouvi dizer que havia a geração Paissandu, que cultuava a nouvelle vague e, especialmente, os filmes de Godard. Em Porto Alegre, o templo era outro, ou outros. Assisti a meus primeiros Godards no Cine Ópera, na Rua da Praia (que não tem praia e hoje também não tem mais cinema), e, depois, no Rex, onde a antiga companhia Franco-Brasileira e a Art nos abasteciam com nosso alimento favorito – os filmes de Godard, Antonioni, Fellini, Visconti. Foi no Rex, como no transatlântico de Amarcord, que assisti a Tempo de Guerra, Viver a Vida, Alphaville, O Desprezo, Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Dela, Made in USA, A Chinesa e Week-End à Francesa, que foram expressando a progressiva radicalização do mais revolucionário dos autores daquela década. Não gosto muito de Acossado, que ficou datado, mas me arripio só de pensar naquela câmera que acompanha Jean Seberg nos Champs Elysés, quando ela berra (canta) ‘New York Herald Tribune!’, com aquele sotaque de gringa falando francês que me parecia, aos 14 anos, a coisa mais fantástica do mundo. Vou cometer o que talvez seja, para muita gente, uma atrocidade – hoje, prefiro o remake de Jim McBride, A Força do Amor, com Richard Gere no papel de Jean-Paul Belmondo, e no qual o herói, vítima daquele revólver louco (Gun Crazy/Mortalmente Perigosa, de Joseph H. Lewis, cujas imagens aparecem na cena do cinema), vai até o fim, jusqu’au bout, atormentado tanto pela polícia como pela mitologia do filme noir. O que acho mais extraordinário em Godard é que ele tratou tudo – a arte, a política, o consumo, os mitos, a religião – como linguagem e essa foi a maior revolução que poderia ter feito, mudando a face do cinema. Há um antes e um depois de Godard. O próprio Godard mudou. Num determinado momento, deixou o cinema dito ‘comercial’, criando uma célula para fazer cinema militante. Mudou várias vezes o suporte – primeiro, a película, depois o vídeo, agora o digital. E sempre a linguagem, a obsessão por desconstruir as histórias tradicionais. Godard é tudo!