Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » God-art

Cultura

Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2006 | 11h15

Comentei com o Zanin (meu colega Luiz Zanin Oricchio, que tem blog próprio no Estado), na sexta-feira – no começo dos anos 70, a ditadura militar aperfeiçoara seu sistema repressivo e ainda ganhara apoio popular, no bojo de uma campanha nacionalista (Brasil, ameo-o ou deixe-o) fortalecida pela conquista da Copa do Mundo do México. Filmes, livros músicas e peças eram proibidos, artistas eram perseguidos. Naquele quadro, a gente acompanhava só à distância a carreira de Jean-Luc Godard, que, após Week-End à Francesa, de 1969, desvinculara-se do cinemão para criar, com Jean-Pierre Gorin, uma célula revolucionária. Surgiu, então, o Godard militante, que Jean Tulard chama, em seu Dicionário de Cinema, de ‘professor da revolução’. Godard assinou filmes tecnicamente rudimentares e didáticos para discutir, no pós-Maio de 68, a revolução. Pode-se agora contestar essa noção de ‘rudimentar’ e também assinalar que nada como o tempo. Bastará sintonizar hoje, às 22 horas, de novo no Telecine Cult, para ver Sympathy for the Devil, um dos filmes mais famosos de Godard daquela fase. O título remete à música famosa dos Rolling Stones e o filme mostra a banda, Mick Jagger e Keith Richards à frente, ensaiando e gravando num estúdio. Como num documentário – mas todo filme de Godard era meio documentário –, ele cria cenas para falar de Panteras Negras, racismo, pornografia, violência, marxismo. Godard teve um papel fundamental na desconstrução da narrativa cinematográfica nos anos 60. E ele, devoto de Fritz Lang, não resistiu a filmar com o mestre alemão de Coração de Apache (hoje no Telecine Cult, às 14h10). Em 1963, Brigitte Bardot era a maior estrela da França e Jean-Luc Godard o grande revolucionário do cinema. Esperto, o produtor Carlo Ponti, marido de Sophia Loren, que arruinara o bom nome de Vittorio De Sica, transformando-o em artesão de filmes formatados para o brilho de sua mulher, contratou Godard e BB para uma adaptação do romance de Alberto Moravia, O Desprezo. Godard fez o que quis – e transformou Fritz Lang no diretor do filme dentro do filme, uma adaptação de Homero (a Odisséia) filmada com estátuas gregas, na qual Lang faz a mesma interrogação de Joseph L. Mankiewicz em outro filme que estava sendo rodado na época, Cleópatra. Por que as estátuas não tem olhos? A resposta fica para você, com a sugestão de que veja Sympathy for the Devil. O filme tem duas versões. Além da que passa hoje na TV paga, há outra, um pouco mais longa, chamada One Plus One.