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Luiz Carlos Merten

07 Junho 2008 | 10h01

É um dos pontos em discussão no livro ‘Que Reste-t-Il de la Nouvelle Vague?’ – o movimento iniciou uma revolução técnica, mais do que estética, e sua herança, no limite, foi ter tirado o cinema do estúdio para filmar a rua, como o impressionismo havia retirado a pintura da Academia, em busca da luz. Em outro livro, ‘Os Cinemas Nacionais contra Hollywood’, o crítico e historiador Guy Henebelle reprocha aos autores da nouvelle vague a sua ausência de consciência (e participação) política. Eram pequeno-burgueses voltados para o próprio umbigo, e bem pouco preocupados com o que ocorria à volta, o que os impedia – segundo Henebelle – de ser verdadeiros revolucionários. Lembro-me de uma entrevista em que Godard confessava que, em 1958, quando pipocavam na França os protestos contra a Guerra da Argélia, ele estava completamente deslumbrado na Croisette, participando do Festival de Cannes e indiferente à gravidade dos acontecimentos (dez anos depois, em maio de 68, a história foi outra). Isso não impediu que Godard fizesse, com ‘O Pequeno Soldado’, um dos primeiros filmes franceses (o primeiro?) a tratar da Argélia. ‘O Pequeno Soldado’ chegou a ser proibido, na França, na época e esta não foi a única proibição enfrentada pela nouvelle vague. Todos os filmes políticos, sobre as guerras coloniais, tiveram problemas de censura e ‘A Religiosa’, que Jacques Rivette adaptou de Diderot, foi proibido por seu enfoque da religião. Na França! Imaginem o que ocorria aqui durante o regime militar. Lembram-se de Michel Poiccard (Jean Paul Belmondo) em ‘Acossado’? Sua máxima era – ‘Viver perigosamente até o fim.’ Por seu elogio da ação gratuita e amor ao dinheiro, pela ambigüidade do olhar do autor sobre a delação, ‘Acossado’ é um filme, era muito mais, que até hoje desconcerta a crítica de esquerda. ‘O Pequeno Soldado’ mostra – já que seeria exagero dizer que conta história de – um pseudo herói de direita, um sujeitinho chamado Bruno Forrestier, cujo pacifismo é considerado sem pé nem cabeça. Bruno foi comparado a Céline e a Drieu de la Rochelle e o próprio ‘O Pequeno Soldado’ tenta uma síntese impossível entre a obra-prima de Drieu, ‘Le Feu Follet’ – que Louis Malle filmou, ’30 Anos Esta Noite’ -, com o humanismo de Malraux em ‘A Condição Humana’. Confuso é o adjetivo mais empregado para definir o filme e eu achei muito engraçada a história que Anna Karina me contou, quando a entrevistei no Rio – Godard teria polemizado com a imprensa francesa dizendo que, se ‘O Pequeno Soldado’ é sobre a confusão política de uma época da história francesa, algo entre o anarquismo de direita e a consciência de esquerda, era preciso deixar a confusão bem clara. ‘O Pequeno Soldado’ foi importante na França por ter sido o primeiro filme a apresentar a tortura na Argélia, mas o próprio Godard admitiu, anos mais tarde, que havia feito um filme fascista, que queria sair do fascismo. Política e ideologicamente, ele evoluiu, ao longo dos anos 60, de seu anarquismo de direita para outro de esquerda e para uma militância, pós-Maio de 68, que o levou ao grupo Dziga-Vertov. A crítica, no começo da carreira dele, inclusive no Brasil, reclamava da falta de ideoloia do seu cinema (e da nouvelle vague em geral). Pode-se até comparar ‘O Pequeno Soldado’ com ‘A Batalha de Argel’, de Gillo Pontecorvo. Seria interessante fazer esta ponte. Bruno Forrestier, em ‘O Pequeno Soldado’, é interpretado por Michel Subor e o filme, se tiver ficado datado, sempre será um documentário sobre a época em que foi feito. Outra importância, não a menor. Foi o primeiro olhar de Godard sobre Anna Karina, que virou sua mulher (e estrela). Na seqüência, eles fizeram ‘Uma Mulher É Uma Mulher’, Viver a Vida’, ‘Alphaville’, ‘Pierrot le Fou’ (O Demônio das Onze Horas) e ‘Made in USA’. Espero que tudo isso tenha tornado atraente para vocês a idéia de assistir ao Godard de hoje da sessão Cinclube do Espaço Unibanco.E o ingresso é baratinho – R$ 5 (foi o que paguei para ver ‘Dois Destinos’/Cronaca Familiare, do Zurlini).

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