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Luiz Carlos Merten

07 Junho 2008 | 09h21

Perdi, na semana passada, a chance de falar siobre ‘O Desprezo’, que era o filme da sessão Cineclube do Espaço Unibanco, ao meio-dia. Quando descobri que passava, já era tarde para dar a dica e para que eu próprio pudesse rever o filme, que é, com ‘Viver a Vida’ e ‘Week-End à Francesa’, um dos meu preferidos de Godard. Ele foi, e ainda é, um dos diretores mais influentes da história do cinema, ao mesmo tempo o estopim e o bufão da nouvelle-vague (como Glauber Rocha no Cinema Novo). Tenho lido e refletido sobre a nouvelle vague nos últimos dias, a partir daquele livro que comprei em Paris – ‘Que Reste-t-Il de la Nouvelle Vague?, de Aldo Tassone – e que emprestei a Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio. Tenho certeza de que ele vai querer tratar do assunto no blog dele. Acho que o livro coloca questões muito importantes relativas não apenas à herança da nouvelle vague, mas sobre os rumos do cinema a partir de 1960. Godard, que o crítico George Sadoul – comunistão, autor de uma famosa história do cinema -, chamou um dia de God-art, fazendo a associação com a pop-art, passa por ser o mais revolucionário dos diretores da nouvelle vague, embora, no mesmo livro, Arnaud Desplechin arrisque a tese de que François Truffaut era mais radical do que ele. Truffaut teve seus momentos de radicalismo, como Godard teve seus momentos de cineasta clássico e o mais clásssico de todos os filmes de Godard eu acho que foi, ou é, justamente ‘Le Mépris’, adaptado de um romance (de Alberto Moravia) e com idéias muito interessantes sobre a arte e a indústria do cinema. Godard recorreu ao mestre expressionista Fritz Lang, como diretor do filme dentro do filme, e eu sempre achei fascinante que ele esteja realizando uma versão da Odisséia com estátuas. O ponto de Godard é que a mulher (Brigitte Bardot) não é mais Penélope, mas se trata de uma decorrência natural do fato de o homem moderno também não ser mais nenhum Ulisses (idéia que Wim Wenders retomou em ‘Paris, Texas’). É curioso, mas Godard, como a nouvelle vague em geral, era empanturrado de cultura cinematográfica norte-americana – amava Nicholas Ray e os grandes do filme noir, dedicou ‘Acossado’ à Monogram, o mais pobre dos estúdios hollywoodianos -, o que não o impediu de desenvolver um discurso, e uma estética, antihollywoodianos, porque na verdade ele estava querendo desconstruir o cinema tradicional, industrial, para fazer o seu cinema. Todo filme de Godard implica sempre numa reflexão sobre essa arte que ele escolheu, e isso me parece mais bacana em ‘O Desprezo’, no qual se pode perceber uma nostalgia rara no diretor. Camille (Brigitte) morre num acidente de carrto estúpido como sua existência e eu acho aquilo muito triste. Por que estou falando tudo isso? Porque hoje, no Cineclube do Unibanco, às 12 horas, tem outro Godard, e este eu não quero perder – ‘O Pequeno Soldado’. Continua no próximo post.