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Luiz Carlos Merten

16 Janeiro 2007 | 19h02

SANTIAGO – Aqui estou eu na capital do Chile, onde fico uma semana com minha filha, Lúcia. Hoje de manhah, em Sao Paulo, tentei postar alguma coisa sobre o Globo de Ouro, antes de viajar, mas criou-se a situacao, insolita para mim, de que nao conseguia entrar no proprio blog. Tentei postar alguma coisa como comentario e, na hora de salvar, perdi todo o conteudo. Bem, cá estou. Que coisa, o Globo de Ouro, hein? Leonardo di Caprio, indicado duplamente, por Os Infiltrados e Diamante de Sangue, conseguiu perder para Forest Whitaker, o que aumenta as chances do ator de Bird no Oscar. Por mais surpreendente que pareca sua vitoria, a verdade é que Whitaker vem recebendo elogios unânimes por seu papel em King of Scotland. Mas nao deve ter sido fácil para Leo engolir a humilhacao. Isso me lembra uma história do Bob Hope, quando apresentou uma cerimönia do Oscar, há priscas eras. Ele disse mais ou menos o seguinte – que as melhores interpretacoes da noite seriam as dos perdedores, que teriam de manter o sorriso (e a dignidade), mesmo que por dentro estivessem querendo morrer (ou matar). Enfim, como indicador de tendências no Oscar, o Globo de Ouro de 2007, para os melhores de 2006, foi muito interessante. Mas vamos comecar do princípio, como se deve. Às 10 da noite, seguindo a informacao que encontrei no proprio Estadao, sintonizei no canal Warner para assistir â cerimonia. Desde as 8, ela já estaria sendo apresentada no canal E! (ou sei lá que outro). Quase morri de tédio, tendo de assistir por uma hora e meia à entrada das celebridades que só diziam besteiras, embora a seu favor deva-se acrescentar que os jornalistas colocados no tapete vermelho as induziam a isso. Quando, finalmente, comecou a premiacao, os primeiros premiados eram melhores da TV – melhor série isso e aquilo. Mesmo com o risco de perder leitores, quero dizer que nao tenho paciência de assistir a séries. Vi um ou dois capítulos de Lost, mais um (só um!) de Sex and the City, acho que nenhum de Friends. Nao é nem que nao goste, é a falta de paciência de assistir aos capítulos ou episódios, que também nao tenho em relacao âs novelas. Detesto essa coisa de ver todo dia, ou uma vez por semana, no mesmo dia. Vejo alguns capítulos de novelas – obrigado – quando me pautam para isso, no jornal. E olhem que antigamente eu via, nos primórdios da TV, Lanceiros da Índia, Bat Masterson, Papai Sabe Tudo e o Dr. Kildare (mas nunca me liguei em I Love Lucy – acho que meu problema é com sitcom). Nao sabia nem quem era aquela gente que estava sendo premiada pelas séries de TV. Resultado. Me aborreci e fui dormir, até porque teria de estar cedo no aeroporto. Pela manhah, conferi os resultados. Gostei dos prêmios de melhor ator e atriz para Jeremy Irons e Helen Mirren, por Elizabeth I, que assisti em bloco, quando recebi todos os episódios para avaliar, no jornal. Premiava Helen como melhor atriz de drama na TV, mas no cinema, em vez de dar-lhe mais um Globo por sua criacao como Elizabeth II em A Rainha – mesmo que ela seja fabulosa -, preferiria ver o prêmio sendo entregue a Kate Winslet, que me parece melhor ainda, por Pecados Íntimos. Nao creio que Scorsese seja o melhor diretor, mas entendo o prêmio que ele recebeu por Os Infiltrados. Scorsese fica fortalecido para o Oscar, embora eu comece a duvidar se ele leva mesmo o prêmio da academia. Mais difícil de deglutir é o prêmio de melhor filme para Babel. Como todo mundo, fiquei impactado quando vi Amores Brutos, mas 21 Gramas já me pareceu uma forcacao de barra (leia-se forsasao, para nao deixar margem a dúvida). Desde que assisti a Babel em Cannes, no ano passado, nao me canso de dizer que é o filme que mais exibe a fragilidade dramática do método do diretor Iñárritu e seu roteirista Guillermo Arriaga. A maneira de unir diferentes tramas e personagens a partir de um incidente me parece cada vez mais artificial no cinema dos dois, uma coisa arbitrária e nem sempre convincente, por mais forca que tenham momentos (ou personagens) isolados. Babel expoe o método e o denuncia, desde o interior, mas isso, pelo visto, nao decepcionou os coleguinhas da imprensa estrangeira de Hollywood, que consideraram o filme o melhor. Em setembro, no Festival do Rio, havia formulado essas objecoes ao próprio Iñárritu. Ele nao gostou, claro, e a entrevista ficou burocrática. Eu perguntava, ele respondia sem muito empenho, com cara de quem achava que nao valia a pena perder tempo com quem nao gostava do filme dele. De tudo o que disse, o que mais guardei foi o seguinte. Iñárritu foi claríssimo ao dizer que acreditava mais nas chances do filme dele no Globo de Ouro que no Oscar. O Globo de Ouro ele já papou, vamos ver agora o Oscar. Babel estréia sexta em Sao Paulo. Fique de olho, se ainda nao viu na Mostra, e depois a gente volta a discutir o assunto.

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