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Luiz Carlos Merten

21 Abril 2008 | 11h19

Confesso que fui desconfiado. Lampião e Maria Bonita, Marcos Palmeira e Adriana Esteves? Devia ter confiado mais. De cara o espetáculo dirigido por Amir Haddad me seduziu. O recurso de armar o cenário diante dos olhos da gente não é novo, mas a mim, pelo menos, é uma coisa que fascina. Dramaturgicamente, a peça me pareceu ousada. Não é outra coisa senão a conversa de um casal, e este casal ocorre ser formado por dois mitos que povoam o imaginário brasileiro. É de manhã, no acampamento, Lampião teve este sonho premonitório de que Maria Bonita e ele vão morrer, e a conversa parte daí. O formato do teatro – o Tuca – é de arena e a concepção da peça e do espetáculo consiste mesmo em fazer a dupla se digladiar verbalmente. Lá pelas tantas, Maria reclama com Lampião – ‘Pare de me tratar como inimiga.’ Mas a frase importante não é essa e sim, ‘O importante é não ficar parado’ (ou coisa que o valha). O conceito do espetáculo também é este. Achei o texto muito rico e a mise-en-scène… Saí pensando com meus botões – será que ‘Virgulino e Maria’ dá filme? O dinamismo dos diálogos, afinal, sempre foi a base do cinema (genial) de Joseph L. Mankiewicz. Marcos Palmeira e Adriana Esteves fizeram o que Greta Garbo havia pedido a Jean Cocteau – Me ‘etonaram’. Saí dali e fui ver ‘Um Beijo Roubado’. Até agora não sei se vocês gostaram. Até agora não sei se EU gostei. O filme tem tanta coisa linda. A própria idéia de que é preciso ir longe para valorizar (e descobrir…) o que está perto é legal. A estrutura narrativa é muito interessante. ‘Um Beijo Roubado’ adota o formato do filme de estrada no sentido mais tradicional. A estrada é a vida e Lizzie (Norah Jones) vive uma história de cada vez – o episódio de David Strathairn e Rachel Weisz, o de Natalie Portman… No final ela não é a mesma pessoa. De certa forma, Wong Kar-wai inverteu a Odisséia. Penélope vai para o mundo e seu Ulisses (Jeremy, interpretado por Jude Law) é quem fica esperando. Curioso, muito curioso, mas ainda não sei se gosto de paixão. O filme é formalista demais, mas aí não é o caso só de ‘Um Beijo Roubado’, mas do cinema de Kar-wai em geral, menos ‘Felizes Juntos’, seu filme mais visceral.