Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Glauber, o eterno retorno

Cultura

Luiz Carlos Merten

07 Setembro 2007 | 12h51

Bira, meu colega Ubiratan Brasil, que está hoje na edição do Caderno 2, me mostrou as fotos do dia, que chegaram de Veneza. Lá estava o Johnny Depp, na homenagem a Tim Burton, que ganhou um Leão de Ouro especial, por sua carreira, e outra foto mostrando Joel Pizzini cercado por Paloma Rocha e Ana Maria Magalhães, na homenagem a Glauber, que inclui a exibição especial da versão restaurada de A Idade da Terra. Escrevi uma vez uma diatribe qualquer sobre A Idade da Terra, que é o filme do Glauber que eu realmente não consigo engolir, e o José Carlos Avellar me disse que o problema é meu, não do filme, e um dia, bem velhinho, se ficasse inteligente, eu ia finalmente entendê-lo. Adoro o Avellar, estou ficando velhinho – bem, nem tanto –, mas ainda não consegui abrir meus olhos para o opus final do mais polêmico autor da história do cinema brasileiro. É bem verdade que faz tempo que não vejo A Idade da Terra. Quem sabe, na próxima? Glauber, aliás, é um fenômeno. Não existe ninguém mais atuante do que ele no cinema brasileiro. Não sei se o Glauber, se fosse vivo, teria tanta facilidade para financiar seus filmes num Brasil que anda refratário como nunca à experimentação, mas, morto, ele é uma verdadeira indústria. A Idade da Terra está em Veneza – onde foi mal recebido no começo dos anos 80 e Glauber esculhambou a crítica presente no festival, chamando-a de ‘colonizada’ –; Ismail Xavier está lançando novo livro sobre Deus e o Diabo, agora Sertão Mar; Paula Gaitán, a viúva de Glauber fez um documentário muito bonito sobre os dois últimos anos do marido em Portugal, Diário de Sintra (que terá exibições amanhã e domingo, às 19h30, no Itaú Cultural, na Av. Paulista); e até Enéas de Souza, o grande crítico gaúcho, na reedição de seu livro trajetórias do Cinema Moderno, faz a revisão de Glauber, admitindo não haver assimilado sua originalidade nos anos 60. Gostei demais do documentário de Paula que também está indo para o Festival do Rio. Paula esculpe o tempo, no sentido de Tarkovski, apresenta imagens inéditas do casal (e dos filhos Ava e Eryk), mas eu confesso que me impressionou o próprio Glauber, falando sobre sonho, marxismo e sobre a morte, com uma serenidade filosófica que me deixou chapado. Glauber ia morrer em seguida. Será que ele sabia, pressentia? Se eu vou ao arquivo do Estado, encontro lá, documentada, toda a polêmica de Veneza, quando ele estava irado contra Deus e o mundo. No Diário de Sintra, é outro homem, não menos polêmico – suas idéias permanecem radicais –, mas mais relaxado, mais pacificado internamente. Ou seja. Não estou reclamando do eterno retorno. Glauber era um e era múltiplo. Todo mundo quer interpretá-lo, descobrí-lo, reinventá-lo, mas acho que ele é uma esfinge a nos desafiar, sempre.

Encontrou algum erro? Entre em contato