Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Gladiador

Cultura

Luiz Carlos Merten

05 Agosto 2009 | 12h22

CANCUN – Como este hotel resort fica meio longe da cidade e eu nao sou muito chegado a praia – nem piscina – fico no quarto, quando nao estou envolvido em nenhuma atividade do evento, a Super Junket (é feminino?) da Sony. Como consequencia, tenho visto muita TV. Voces sabem que nao curto séries porque nao me agrada a ideia de ficar preso a dias e horários. Também nao vejo novela por isso. Mas é curioso – vi ontem um episódio de uma série, Mental, acho que com Chris Vance, que achei bem legal. Ontem, vi outro episódio, de outra série, Justica Cega, com aquele cara do sexo, mentiras e videotape, o loiro, que, por sinal, engordou e está meio estranho. A série deve passar no Brasil, acho que já vi algumas imagens zapeando, mas a história do escritório de advocacia me apanhou, ontem, nao tanto pelo caso em si. A equipe tenta salvar sujeito acusado de assassinato e ele tem uma folha corrida que o incrimina, mas aqui nao matou (e era amante da vítima). O que gostei foi das histórias dos advogados entre eles, uma coisa bem real de homens que nao podem ver rabos de saias e de mulheres enroladas com os colegas. Bem interessante. Mas quero dizer que houve ontem uma festa – de Zombieland; havia premio para a melhor fantasia de zumbi, mas fiquei fora – e eu demorei a sair do quarto porque comecei a ver… Gladiador. Dei uma comparecida na festa e voltei para a conclusao da saga de Maximus, o general feito escravo, o escravo que vira gladiador e o gladiador que desafia o imperador, tal como é contada por Ridley Scott. Nao revi o Gladiador inteiro. Faltou o miolo, mas voces sabem que tenho um fascínio pelo filme, como pela obra de Ridley Scott em geral. Gladiador é a síntese de dois filmes cults – Spartacus, de Kubrick, que todo mundo recolnhece como um dos grandes épicos do cinema, e A Queda do Império Romano, de Anthony Mann, que a maioria da crítica reconhece como um fracasso do grande diretor de westerns, mas eu gostaria que muito filme com a fama de grande fosse tao rico quando este shut down. O início e o final de Gladiador e da Queda sao muito próximos, exceto pelo fato, essencial, de que Ridley Scott fez um épico espírita, no qual tudo, desde o comeco, com a premonicao da tragédia – a mao deslizando sobre o campo de trigo -, até o final, o reencontro de Máximo, Russel Crowe, após a morte, com a mulher e o filho, o tema do filme é a espiritualidade. Neste sentido, revendo ontem Gladiador lembrei-me muito de Titanic, de James Cameron, com aquele final, a restauracao do transatlantico e o reencontro de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet que pode muito bem representar a chegada ao paraíso. Mann, neste sentido, é diverso. O que ele filma, no desfecho de A Queda, é o império romano em transe. Lucila, Sophia Loren, corre pelas ruas conclamando o povo, enquanto os generais leiloam a grandeza de Roma, oferecendo o título de César a quem pagar mais. Já escrevi o que pode parecer bobagem, que Anthony Mann antecipou Glauber e o final de A Queda é a cena mais glauberiana que Glauber nao filmou. Descontinuidade, transe, e numa superproducao de Hollywood. É incrível. Sei que tem gente que detesta Ridley Scott. Acha publicitário etc e tal. Vários filmes dele ficaram, ficam, comigo e nao sao os mais populares, Alien e Blade Runner. Gladiador é um deles. É um filme que sempre me perturba. E Joaquin Phoenix, como Commodus, é uma coisa de louco.