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Gitai, aborto e pixação

Luiz Carlos Merten

09 Outubro 2010 | 23h31

Vamos por partes, como diria o esquartejador. Cheguei ontem ä noite em casa e encontrei um pacote da Cult Classic, incluindo `Quatermass and the Pitt`, de Roy Ward Baker, que foi lançado no Brasil como ‘Uma Sepultura para a Eternidade`. No que se refere a Ward Baker, fecho com a crítica francesa, que sempre o teve na conta de gënio, principalmente por seus filmes fantásticos, embora ele tenha se exercitado em diversos gëneros, incluindo western. O bangue-bangue de Ward Baker, por sinal, deve ser o mais `fantástico`do cinema, À História de Um Homem Mau`, com Dirk Bogarde na pele de um pistoleiro gay que disputa com a sexy Mylëne Démongeot a atenção de um padre. Não sei o que é mais insólito, acho que o padre, porque eles não eram muito frequentes na paisagem do Oeste e gays, afinal de contas, sempre houve a suspeita de que muitos daqueles pistoleiros eram (enrustidos). De volta a `Sepultura`, sempre achei o filme impressionante, e duplamente, pelo visual carregado, que sempre me pareceu ter sido a referencia de Ridley Scott e HR Giger, quando ambos criaram `Alien`, e também pelo conceito dramático. O filme começa quando operários do metro de Londres, durante uma escavação, descobrem uma arma que pensam ter pertencido aos alemães, durante a 2.a Guerra, mas na verdade, avaliza o professor Quatermass,  é uma herança dos marcianos, quando colonizaram a Terra. A tese de Ward Baker é que eles nos legaram a inteligencia, mas também o ímpeto belicoso e guerreiro. O filme é muito, mas muito, interessante, ou assim permanece no meu imaginário. Espero que a boa lembrança se confirme. Os demais títulos do pacote da Cult não me atraíram tanto. `Madame X` é mais um melodrama de Lana Turner na empresa Universal, após o sucesso de `Imitação da Vida’`, com a diferença de que o outro era assinado pelo grande Douglas Sirk e a história da mãe forçada a abandonar o filho e que, anos mais tarde, é defendida por ele da acusação de assassinato, sem que o jovem advogado conheça sua identidade, é agora dirigida por um dos mais medíocres artesãos da casa, David Lowell Rich. ‘Sangue em Sonora`, de Sidney J. Furie, não é muito melhor, apesar da presen;a de Marlon Brando. Na época, ele andava com o prestígio erm baixa e, na Universal, fazia não importa o que, quase sempre coisas muito ruins. Brando faz o forasteiro que chega a cidadezinha na fronteira mexicana e entra em choque com John Saxon, que domina o local a ferro e fogo. Saxon e seus capangas aplicam uma surra no estrangeiro e o prendem numa árvore, na sequencia de uma trama que envolve o roubo de um cavalo da raça apaloosa. É curioso, mas o tipo de (anti)herói que Brando representava envolvia sempre um componente masoquista, e isso vinha desde `Sindicato de Ladrões`, de Elia Kazan. Ele tomou surras homéricas, não apenas naquele filme e em `Sangue em Sonora`, mas em ‘A Face Oculta`, que dirigiu, e `Caçada Humana`, de Arthur Penn. Furie nunca teve aptidão para o western, com seu estilo preciosista, feito de planos próximos e enquadramentos rebuscados. É famosa a cena do lançamento da Cult em que Brando finge estar dormindo e olha o que se passa ao redor através dos dedos com que finge tapar o rosto. Prosseguindo, chego hoje pela manhã ä coletiva da Mostra, que foi precedida, para mim, de um café da manhã com a produtora Elisa Tolomelli e a diretora Malu De Martino, para falar de `Como Esquecer`, que estreia na sexta-feira que vem. Só depois fui para o Cine Livraria Cultura, onde houve a coletiva do evento e, em seguida, a exibição de `Roses ä Crédit`, o novo Amos Gitai, do qual gostei bastante. Tenho muito para falar da Mostra, cujo número atual de filmes está em 459, mas poderá crescer. Para tentar assistir a míseros 10% deste total, 45 filmes, o espectador terá de ver 3 filmes por dia, todos os dias, durante duas semanas. Haja folego. Meu dia não terminou aí. Assisti, na Galeria Olido, a `Pixo`, de João Wainer e Roberto T. Oliveira, que integrou a programação do Festival do Rio, na mostra Itinerários Únicos. Também gostei e recomendo que vejam, amanhã e até dia 14, sempre äs 19h30. O curioso é que um amigo me havia dito que o filme de Gitai representava uma novidade na carreira do autor porque não era político, somente uma história de amor. Somente? A ligação de Lea Seydoux e Grégoire Leprince-Ringuet, os dois do elenco de `A Bela Junie`, é marcada por diferenças culturais e de classe, e pelo consumismo dela. Começa após a 2.a Guerra e termina na Paris atual, e só isso já trata de questões economicas e políticas que estão na essencia do mundo globalizado, pós-utópico. Tem mais. A parte final é marcada pelo tema que virou o mais importante no segundo turno da eleicão brasileira, o aborto. O discurso de Ariane Ascaride, a atriz fetiche de Robert Guédiguian, como a médica que explica a Léa que o corpo é dela e ninguém mais tem o direito de interferir no seu desejo (direito?) de ter um filho, ou de tirá-lo, tem o efeito de uma bomba, neste quadro de polarização. E o meu amigo ainda disse que o filme de Gitai não é político. É sim, e como!