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Luiz Carlos Merten

05 Setembro 2007 | 16h36

Fui comentar com Antônio Gonçalves Filho o revival de Cruising (Parceiros da Noite) e lamentei não ter falado com ele antes de entrevistar William Friedkin. AGF me lembrou o que havia esquecido – Friedkin utiliza na trilha os grupos pesados que faziam sucesso no fim dos anos 70, mas para as cenas do assassino de gays importou, do Brasil, Egberto Gismonti, que não queria compor e disse que ia a Nova York, mas não sairia do hotel. Friedkin montou um estúdio para ele e o Egberto compôs/gravou a música sem sequer ter visto o filme. Tão louca quanto essa história é a da trilha de Ascensor para o Cadafalso, de Louis Malle, com Jeanne Moreau, de 1957, considerado um dos marcos definidores da nouvelle vague. Malle trancou Miles Davis com seu sax no estúdio e ele improvisou, numa única noite, a trilha do filme sobre casal de amantes que planeja o crime perfeito – o cara mata o marido dela, mas, na hora de fugir, fica preso no elevador. Para complicar, outro casal rouba seu carro e atropela (matando) dois turistas, o que desencadeia a caçada da polícia. A sutileza da trama é que Maurice Ronet, que faz o papel, é caçado pelo crime que não cometeu. Mas o que o espectador retém do filme – o que eu retenho, pelo menos – são as imagens de Jeanne Moreau na noite de Paris, caminhando ao azar, com Miles Davis ao fundo.