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Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2009 | 16h55

Vamos voltar à Mostra? No sábado pela manhã, depois de assistir a ‘A 40ª Porta’, entrevistei Gian-Vittorio Baldi, que está sendo homenageado por Leon Cakoff. Adorei o velhinho e pelo visto ele retribuiu, mas vou fornecer munição para os que falam mal de mim. Como sempre, não fiz minha lição de casa, pesquisando na internet antes de entrevistar o cara. Vou sempre convencido de que minha intuição funciona mais e eu consigo tirar o que me interessa do entrevistado. Mas o Baldi, claro, percebeu que eu não conhecia muito da obra dele – exceto o fato de que foi ator de Renato Castellani (em 1956!) e que produziu obras de diretores que admiro. Como ele disse – pouquíssima gente sabe de sua participação no elenco de ‘Il Sogno nel Cassetto’ (No Limiar da Realidade). Bem, eu sabia! Mas terminou a entrevista, gravada pela Maria Fernanda, da assessoria da Mostra, e o Baldi me perguntou se podia me dizer uma coisa sincera. Por favor, respondi. Ele disse que achava que eu não entendia muito de cinema – não polemizei sobre isso -, mas me achou muito inteligente e jovem de espírito. Na verdade, disse que eu sou ‘giovanni in testa’. Baldi dá uma master class mais para o final da Mostra. Será imperdível, porque o cara tem uma trajetória muito rica no cinema italiano de ideias. Baldi produziu Pasolini, ‘Pocilga’, e Jean-Marie Straub e Daniele Huillet, ‘Crônica de Ana Madalena Bach’, que é um dos filmes mais belos do mundo. Ambos passam na Mostra, com ‘Fogo!’, longa do próprio Baldi – ele é mais conhecido por seus curtas -, tão avançado para sua época, 1969, que a crítica premiou o diretor 40 anos depois pela contribuição representada por essa obra. Acho que vou voltar ao Baldi, para polemizar um pouco. Falamos sobre cinema italiano em geral – Fellini, que o apadrinhou, Antonioni e Visconti. Disse-lhe que ‘Rocco’ é meu filme preferido. Baldi considera Visconti um grande regista, mas não um autor. Na hora, não polemizei, porque Visconti, afinal, não escrevia os roteiros de seus filmes, mas já dizia o grande Michel Mourlet que, no cinema, ‘tout est dans la mise-en-scène’ e a de Visconti é extraordinária. A autoria vem toda do ator de dirweção, da ligação que ele estabelece entre o ator e o cenário para expressar sua visão do homem no mundo. No começo de sua carreira, Visconti fazia um cinema definido como ‘antropomórfico’, no qual dirigia a câmera basicamente para o corpo do ator. Em meados dos anos 50, ele descobriu a zoom e, a partir de ‘Vagas Estrelas da Ursa’, há uma mudança significativa na mise-en-scène ela fica mais dura. Se tudo isso não faz uma autoria…