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Gigantes da imagem, Vilmos e Haskell

Luiz Carlos Merten

06 Janeiro 2016 | 09h37

Havia feito o obituário de Vilmos Zsigmond no fim de semana. O grande fotógrafo húngaro que fez carreira nos EUA – e foi listado pela International Cinematographers Guild como um dos dez mais influentes diretores de fotografia do cinema – morreu no dia 1º em sua casa, em Big Sur, na Califórnia. Nos anos 1950, recém formado na Academia de Cinema, Zsigmond e o amigo Laszlo Kovacks filmaram os levantes populares contras o stalinismo em Budapeste. Editaram o material, que serviu de passaporte quando eles fugiram para a Bélgica e os EUA. Radicado em Los Angeles, virou cidadão norte-americano em 1962. Trabalhou num laboratório, começou a fotografar filmes B. No começo dos anos 1970, iniciou a parceria com Robert Altman – McCabe & Mrs. Miller/Onde os Homens São Homens, Um Perigoso Adeus. Fotografou para Steven Spielberg – e ganhou o Oscar por Contatos Imediatos do Terceiro Grau -, John Boorman, Michael Cimino, Brian De Palma, Woody Allen. Uma de suas fotografias mais belas foi para Peter Fonda, no western Pistoleiro sem Destino, de 1971. Zsigmond fazia experimentos com a película. Submetia-a a emissões controladas de luz, superpunha imagens e isso criava uma textura muito rica, como uma tapeçaria. Talvez pela formação europeia, dizia que o fotógrafo não tinha apenas de dominar a técnica, mas tinha de aprimorar a sensibilidade – e a cultura. Criou um instituto para estimular novos talentos. E, no ano passado, foi homenageado em Cannes. Passou o documentário Vilmos & Laszlo – No Subtitles Necessary. Esse cara fez história. Qual não foi minha surpresa quando Antônio Gonçalves Filho me disse ontem, na redação do Estado, que outro grande fotógrafo havia morrido poucos dias antes. Ele encontrou no The Guardian online o obituário de Haskell Wexler. Morreu no dia 27, aos 93 anos – Vilmos Zsigmond tinha 85. Como ele, Wexler foi incluído pela Guild na mesma lista de dez mais. Ganhou o Oscar por Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, na estreia de Mike Nichols, um portentoso e opressivo estudo de angulação e atmosfera, em preto e branco. Foi a última vez, em 1966, que um filme em PB venceu o Oscar da categoria. Ganhou um segundo prêmio da Academia em 1977 pela fotografia em cores de Esta Terra É Minha Terra, a cinebiografia de Arlo Guthrie, por Hal Ashby. Antigo fotógrafo de documentários, curtas e programas de TV, Haskell Wexler foi sócio de Conrad Hall – outro gigante da imagem – numa empresa de comerciais. Estreou fotografando, em preto e branco, para Elia Kazan – Terra do Sonho Distante/América América. O filme de 1963 deve ter estreado no Brasil em 1965 ou 66, porque me lembro de haver escrito sobre ele uma de minhas primeiras críticas num impresso, o Diário de Notícias de Porto Alegre. Nunca revi América América, mas tenho uma lembrança muito viva do filme. Stavros/Stathis Giallelis sai da aldeia na Turquia. Prostitui-se, avilta seu corpo de várias formas para chegar à terra do sonho distante. América! E o tempo todo ele acredita que a água o lavará de seus pecados. Na época, a Warner cortou e remontou o filme. Não sei se existe uma versão ideal, restaurada, de Terra do Sonho Distante, mas é um filme cujos fragmentos sobrevivem no meu imaginário. Haskell Wexler foi diretor. Fez, em 1969, Medium Cool, que virou um filme emblemático da era, com o jovem Robert Forster como um cinegrafista confrontado com a dura realidade. Misturando ficção e documentário, o filme tem seu clímax na célebre convenção do Partido Democrata em Chicago, em 1968, que degenerou em pauleira e tiroteios. Com a câmera na mão, Forster filma a confusão do mundo ao redor e Wexler o filma no duplo exercício, da profissão e da cidadania. Me lembro do impacto que Medium Cool causou. A América e o mundo estavam em transe por volta de 1970. Wexler, como Zsigmond, foi um diretor de fotografia engajado. Que coisa morrerem com tão poucos dias de distância um do outro. Só para constar. Vilmos Zsigmond morreu de câncer e Haskell Wexler dormindo, num centro médico de Santa Mônica.