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Cultura » Giallo, a série amarela italiana

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Luiz Carlos Merten

14 Março 2016 | 10h46

Ao relacionar as caixas de DVDs no novo pacote da Versátil, omiti Giallo Volume 2, a nova antologia do cinema ‘amarelo’ italiano, com mais quatro títulos. Lucio Fulci e Sergio Martino assinam dois filmes, Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher e Torso – ambos já tinham filmes no volume anterior. O curioso é os ‘gialli’ de Fulci (O Segredo do Bosque dos Sonhos, na edição anterior) são interpretados por Florinda Bolkan, mas o que quero destacar é o seguinte. O Volume 2 traz filmes de Masasimo Dallamano e Aldo Lado. Como? Massimo quem e que Aldo é esse? Você não encontra nenhum deles no Dicionário de Cinema – Os Diretores, de Jean Tulard, nem no Dicionário de Cineastas, de Rubens Ewald Filho, que são as principais (únicas?) obras de referência no País. Em compensação, Peter Bondanella faz análises muito ricas de ambos os diretores – ‘autores’ – em sua History of Italian Cinema, da Bloomsbury. Dallamano foi fotógrafo de Sergio Leone nos dois filmes da série ‘Dólar’, com Clint Eastwood, e fez uma série de policiais relacionando crimes sexuais e adolescência, inclusive O Que Vocês Fizeram com Solange?, no Volume 2. Aldo Lado foi assistente de direção de spaghetti westerns e depois vinculou-se a um cinema mais engajado, trabalhando com Bernardo Bertolucci em O Conformista. Sua Breve Noite das Bonecas de Vidro, no Volume 2, foi filmada em Praga e assume, não por acaso, uma dimensão kafkiana na história de jornalista que investiga o desaparecimento repentino da namorada. Ele descobre uma rede satanista formada por velhos que sacrificam jovens em rituais de sexo. Dallamano foi pioneiro no thriller de investigação forense e Bondanello arrisca que toda a produção norte-americana de TV do gênero (CSI, Law and Order) é cria dele, só que Dallamano era muito mais hard. O diretor não poupa o espectador de detalhes escabrosos. Uma das garotas de …Solange? tem esperma em todos os orifícios do corpo e até no estômago. Outra, que integra a rede de prostituição, mas não por necessidade – é rica -, desafia o investigador. “Pra que todas essas perguntas? São só umas trepadas…” Ambos, Dallamano e Lado, criticam a elite no poder. Empresários, políticos, magistrados. Corrupção e violência. Não poupam o clero. Um padre é assassino, outro, estuprador. E Lado, certamente, provoca – os participantes de suas orgias são velhos e velhas caindo aos pedaços. Nem Federico Fellini foi tão fundo no grotesco. Só falta agora, num eventual Volume 3 do Giallo, a Versátil trazer a obra-prima de Lado, Night Train Murders/Assassinatos no Trem da Meia-Noite, em que ele, segundo Bondanello, transpõe A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman, para o trem em movimento – e antecipa Wes Craven, Last House on the Left.