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Luiz Carlos Merten

12 Julho 2009 | 23h10

Estou cansado, debilitado e o dia amanhã vai ser longo, mas não resisto a acrescentar mais um post, que me persegue há dias. Outro dia, precisando sair do jornal e sabendo que ia ficar uma hora ou mais no trânsito, peguei um livro pequeno, de fácil leitura. Entre as opções na minha mesa de trabalho estava o volume da coleção L&PM Pocket Encyclopaedia sobre a Geração Beat, de Claudio Willer. Nunca me havia aprofundado no assunto. Conhecia, bem entendido, Kerouac, Ginsberg e William Burroughs, ou conhecia a produção intelectual desses caras – ‘On the Road/Pé na Estrada’, ‘Uivo’ e ‘Almoço Nu’. Claudio Willer não apenas disseca a obra, mas conta a história dos próprios personagens e esses caras tiveram vidas aventureiras, com experiências radicais que dariam (muitos) filmes. O experimentalismo não era só estético. Era comportamental. Eles foram ao limite da experimentação, inclusive por meio das drogas e do sexo, buscando muitas vezes na degradação uma forma de sublimação e ascese. Estou falando da geração beat, mas isso se aplica ao cinema de Walter Hugo Khouri e ao seu personagem emblemático, Marcelo. Que ponte mais interessante! De volta à geração beat, coincidiu de eu ter visto esta semana naquela loja de DVDs, em frente ao Espaço Unibanco, na Augusta, o disco digital de ‘Chappaqua’. Conrad Rooks, que dirigiu o filme, sequer consta do Dicionário de Cinema de Jean Tulard. Produção ultra-independente e marginal, ‘Chappaqua’ de alguma forma pode ser comparado a ‘Cléo das 5 às 7’, clássico de Agnès Varda que Antoine de Baecque aponta como um dos 20 filmes que fizeram a nouvelle vague em seu livro ‘Portrait d’Une Jeunesse’. ‘Cléo’ mostra a valquíria Corinne Marchand como essa mulher que flana por Paris, durante duas horas, enquanto aguarda pelo resultado do exame que dirá se tem câncer ou não. ‘Chappaqua’ trata de outras duas horas de deambulação, a desse homem que vai se submeter a um processo de desintoxicação – é drogado – e antes de se internar vaga à toa, em busca de um sentido para a vida. Entre as figuras que encontra estão justamente Allen Ginsberg e William Burroughs. Ainda não tive tempo de (re)ver ‘Chappaqua’, mas até onde me lembro o filme é muito louco, insólito, com imagens bizarras. Conrad Rooks fez depois um filme quer virou cult nos anos 60, ou por volta de 1970, quando estreou no Brasil – ‘Siddartha’, baseado no romance de Herman Hesse, sobre o aprendizado de um jovem indiano que, lá pelas tantas, se consome no sexo, em cenas que parecem ilustrações do ‘Kama Sutra’, e depois fica paradinho na margem daquele rio, até perceber que o que está passando é o próprio movimento da vida. Tudo isso está conectado, a cosmovisão de ‘Siddartha’ com ‘Chappaqua’, a busca da transcendência pela geração beat e o seu flerte com as filosofias orientais. O mais bacana de tudo – como preparativo da sua adaptação de ‘Pé na Estrada’, que poderá ser o ápice do seu cinema ‘on the road’, Walter Salles fez um documentário seguindo a trilha da geração beat, ouvindo remanescentes. Está aí um filme que quero ver. Aliás, dois, já que na sequência virá o ‘On the Road’. Já ia salvar quando me lembrei de outra ponte possível no Brasil, além da busca da ascese em Khouri. Nunca tingha reparado, mas a produtora de José Eduardo Belmonte chama-se Beatnique, ou é só a produtora ‘Meu Mundo em Perigo’? Esse assunto vai render…

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