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Luiz Carlos Merten

25 Julho 2007 | 11h54

Que coisa! Ontem postei aqui o texto sobre a morte do grande diretor de fotografia Laszlo Kovács e somente hoje descobri que outro notável húngaro também morreu no fim de semana. Kovács morreu no sábado, George Tabori no domingo à noite. Estava quase centenário. Tinha 93 anos. George quem? Tabori foi um grande dramaturgo que nasceu em Budapeste, mas que desenvolveu sua obra ligado ao Berliner Ensemble. Tradutor de Brecht para o inglês, ele fez uma nova versão de Mãe Coragem em 1979, inspirando-se no texto original, ao qual superpôs episódios que lembravam a fuga de sua mãe de um campo de concentração dos nazistas, durante a 2ª Guerra. Tabori também escreveu uma peça de humor negro chamada Minha Luta, como o livro homônimo de Hitler, que provocou muita polêmica na Alemanha. No cinema, escreveu roteiros para Alfred Hitchcock e, principalmente, Joseph Losey. Não tenho elementos para confirmar o que vou dizer, mas acho que Losey deve ter conhecido Tabori por causa de Brecht, já que ele próprio foi um estudioso de Brecht (e a vida toda quis verter Galileu Galilei para o cinema). A parceria Losey/Tabori resultou num dos filmes mais perturbadores que conheço. Cerimônia Secreta trata da relação entre Elizabeth Taylor e Mia Farrow, como mãe e filha substitutas. Liz parece a mãe morta de Mia e a própria Mia se assemelha à filha de Liz, que também morreu. Cria-se uma relação autofágica, que Losey filma por meio de elegantes movimentos de câmera e um abre-e-fecha de portas que revela personagens encerradas em seus segredos. O desfecho é enigmático. Liz conta uma história – dois ratinhos caíram num pote de leite. Um morreu afogado e o outro se debateu a noite toda. De manhã, conseguiu caminhar sobre o monte de manteiga que se havia formado. Sensacional. Até onde sei, é uma típica idéia do tipo de dramaturgia que George Tabori gostava de criar.