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‘Gente Como a Gente’

Luiz Carlos Merten

24 Julho 2009 | 15h31

Não me lembro mais quem me pediu para comentar ‘Gente como a Gente’, tendo feito antes a ressalva de que a maioria da crítica não gosta muito do filme, porque Robert Redford ‘roubou’ o Oscar de Scorsese, ‘Touro Indomável’. Quero dizer que sempre gostei muito de ‘Ordinary People’ e nunca me conformei com o fato de Sissy Spacek ter sido melhor atriz em 1980 – por ‘O Destino Mudou Sua Vida’ (Coal Miner’s Daughter) –, ela sim roubando o prêmio que me parecia talhado para Mary Tyler Moore. ‘Gente Como a Gente’ é contemporâneo de ‘Sonata de Outono’, que Bergman havia feito em 1978. Ambos tratam dessa figura rara no cinema – a mãe que odeia o próprio filho. Mais do que ódio, Ingrid Bergman despreza Liv Ullman no filme de Bergman. Quando a filha vai executar a sonata ao piano, a mãe, grande artista mas mulher sem alma, a humilha mostrando como se toca de verdade e ela nem sente quanto está sendo cruel. Há ali uma violência que, mal comparando, produz tantos estrangos quanto as metralhadoras cuspindo fogo de ‘Inimigos Públicos’. Em ‘Gente Como a Gente’, Mary não perdoa Timothy Hutton por haver sobrevivido ao acidente que custou a vida ao outro filho, seu favorito. Ela preferiria que Hutton tivesse morrido. Redford fez um filme gélido sobre paixões, e emoções reprimidas. A família desintegra-se, apesar dos esrforços do pai para mantê-la unida. Donald Sutherland diz que não ama mais a mulher e não sabe como lidar com isso. O filme tem algo de bergmaniano. Passa-se naquele ambiente rico. Predominam os tons bege e amarelo. Mary Tyler, comediante – ‘Positivamente Millie’ e o ‘Mary Tyler Moore Show’ –, fala pouco. Tudo o que diz vem da boca amargurada, das crispações das mãos, da forma como ela puxa aquele casaco como se quisesse se isolar dentro daquela família que vai virando seu calvário. Quando vi ‘Gente Como a Gente’ pela primeira vez, me impressionei com o film debut de Robert Redford e me impressionei mais ainda com o fato de o estilo do filme ter a cara dele como ator. Redford é um ator minimalista cujas interpretações em geral começam suaves e vão se tornando progressivamente dramáticas, às vezes debntro da mesma cena. O filme também é assim e Mary Tyler Moore representa como o ator e diretor o faria. ‘Gente Como a Gente’ ganhou os Oscars de filme, diretor, ator coadjuvante (Hutton) e roteiro (Alvin Sargent). Eu teria acrescentado a esses o prêmio de melhor atriz. Redford não manteve o mesmo nível, depois, mas continuou sendo um diretor interessante. Gostei muito de ‘A River Runs Trough It’ (Nada É para Sempre), mas mesmo assim não tive a mesma empatia de ‘Ordinary People’. Não revejo o filme há tempos, mas ao escrever este post estou revendo Mary Tyler Moore na minha imaginação. Maravilhosa!