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Cultura » Gênio ou chato?

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Luiz Carlos Merten

19 Março 2008 | 14h40

Achei muito legais os comentários sobre o post do Arthur C. Clarke. Sim, eu li o cara e até acho que deixei mais ou menos claro que o achava mais cientista do que grande escritor (e portanto tenho consciência do muito que ele contribuiu para este blog e a internet em geral). Só achei graça que muitas previsões dele não tenham se concretizado, sorry. Mas o que eu acho um barato quando se abre uma discussão é que surgem opiniões tão divergentes. Claro, também acho que Minghella e Clarke não se comparam a Bergman e Antonioni, mas jornalisticamente os dois foram ‘grandes’ mortos, por que não? Vejam os espaços que os respectivos obituários receberam na mídia. E, depois, olhem que maravilha – Clarke foi definido como grande escritor ou então como um cara que, sem Kubrick, teria ido para o brejo (confesso que estou mais para esta segunda opção). O próprio Kubrick foi chamado de gênio e espinafrado – quem foi que achou ‘2001’ chato demais? Quanto a ele ser pessimista… Kubrick é sempre pessimista, até em ‘2001’, mesmo que ao relacionar, neste filme, o macro e o micro-universo e propor aquele feto, como um recomeço, possa se dizer que ele esteja abrindo uma etapa. O pessimismo, para mim, vem do fato de que não há diálogo entre o criador (o monolito) e a criatura (o homem) e também porque, quando Kubrick mostra a transformação do seu astronauta, ele chega à imagem do velho que morre num cenário à Luís XVI, que evoca a Revolução Francesa. A data é um marco na história da humanidade, mas pensem em Kieslowski – o que restou daquelas divisas, liberdade, igualidade, fraternidade? Pensem em Thackeray, ‘Barry Lyndon’, o que era a vida daquela pequena burguesia irlandesa, filtrada pelo olhar do personagem de Ryan O’Neal? Pode ser uma deformação de crítico, de pensar cada filme à luz da obra do autor, mas Kubrick, até quando parecia querer ser otimista, reafirmava seu pessimismo quanto ao futuro do homem. E sobre ele ser chato – não concordo, claro, mas acho muito espirutuosa uma afirmação de Pauline Kael. A crítica norte-americana dizia que, se cortassem as piadas e a alegria de ‘As Aventuras de Tom Jones’, de Tony Richardson, o resultado seria ‘Barry Lyndon’, no qual, segundo ela, Kubrick teria se limitado a fotografar objetos de arte para tornar seu filme chique.