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Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2010 | 11h12

Fui rever ontem à noite ‘Tropa de Elite 2’ no Shopping Bourbon. Sessão das 20h30. A sala estava praticamente lotada – quer dizer, havia alguns lugares na primeira fila. E isso numa segunda-feira à noite. O filme de José Padilha há tempos deixou de ser só… um filme. Virou um fenômeno. Na entrevista que me deu, em Campinas, na manhã seguinte à pré-estreia em Brasília, o diretor manifestou a esperança (o desejo?) de que ‘Tropa 2’ provocasse um debate sobre segurança entre os presidenciáveis do segundo turno. Afinal, é o tema que, segundo pesquisas, mais interessa aos brasileiros. Que segurança, que nada. O aborto divide mais o eleitorado. Virou o foco da campanha. Saí ontem do cinema impactado como da primeira vez que vi o filme. Exatamente com a mesma vontade de chorar. Padilha usa muito a definição de gênio. Irandhir Santos e Seu Jorge são gênios para ele. Com uma alegria infantil, de menino, ele me contou, conhecido o método de preparação de elenco de Fátima Toledo, que Seu Jorge, sem muito tempo para dedicar ao filme, pediu a Padilha que agendasse uma horinha dele com Fátima. Era o que tinha para se preparar, e ele é poderoso – gênio – na abertura do filme. Gênio é o próprio Padilha, ouso dizer. Ele pode até errar. F…-se. Quem disse que gênios não erram? O nosso Kubrick? Em ‘200’, Uma Odisseia no Espaço’, Kubrick relacionou o macro e o micro-universo. Padilha usa a narração em ‘Tropa 2’ para tratar do macro, do ‘sistema’, do Brasil. Para o micro, a família, a relação do agora Coronel Nascimento com a família, o filho, a ex-mulher, o novo marido dela, a chave não é a narração, mas a ação, o gesto. O filme não psicologiza. Também não facilita a vida para ninguém. As cenas mais polêmicas – o aplauso no restaurante, a porrada no político – são pontuais, dialogam entre si e, mais do que isso, talvez sejam contrapontos dramáticos às execuções sumárias de Rocha. Não me lembro de outro roteiro tão à americana nem tão sólido. Mesmo quando parece que vai seguir arquétipos, Padilha os subverte. Não está sozinho. Bráulio Mantovani co-assina o roteiro. E os pequenos ‘toques’. Fraga, a mulher e o filho saem do cinema que exibe um ciclo Costa-Gavras. Diretor de filmes políticos, ele presidia o júri que atribuiu o Urso de Ouro de Berlim a ‘Tropa 1’. Pode ser um piscar de olhos, um clin d’oeil, como dizem os franceses, mas quais são mesmo os filmes anunciados na marquise? “Z’, claro, tem tudo a ver com a denúncia da corrupção do sistema eleitoral (e político, de maneira geral), mas também ‘Estado de Sítio’ (a repressão montada durante o regime militar) e ‘Hanna K’. Por que o filme com Jill Claybourgh, que nem é um dos mais famosos de Costa-Gavras? Talvez por causa da situação pessoal e familiar da protagonista – seus problemas com o ex-marido, com o advogado distrital israelense e com o líder palestino que reclama direitos sobre a terra de seus ancestrais. Apropriado, não? E o Wagner (Moura) é gênio. Certos momentos dele com André, com o filho transcendem a arte da representação. São viscerais. O olho treme, o lábio se contrai. A pressão sobre Nascimento é transparente. Gostar ou não de “Tropa 2’ é o de menos. Tão subjetivo. Mas eu tenho a impressão de que se vir o filme dez ou cem vezes vou me sentir impactado de novo, e descobrir novas coisas. O sistema, diz Nascimento, é f… F… é o Padilha.

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