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Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2011 | 16h51

TIRADENTES – Ainda não consegui postar sobre ‘Os Monstros’, o novo filme dos irmãos Preti e dos primos Parenti, o único inédito (para mim) na programação de ontem à noite aqui em Tiradentes. Gostei demais, e para mim foi a confirmação das qualidades de ‘Estrada para Ythaca’, que o mesmo quarteto fez no ano passado. Estava no júri e não vou dizer que tenha sido uma batalha – a batalha de Tiradentes – garantir o prêmio para os garotos de Fortaleza. Mas houve, num determinado momento, uma discussão envolvendo outro filme, talvez outros, e eu confesso que sabotei para que ‘Ythaca’ ganhasse. Quando digo sabotei, exagero, bem entendido, mas neste momento fui guerreiro pelo filme das minhas preferências, que ganhou e, portanto, era o que mais satisfazia o júri como um todo, senão não teria levado. ‘Ythaca’ possuía referÊncias míticas (a Odisseia), discutia o cinema naquela encruzilhada em que o colocaram Jean-Luc Godard e Glauber Rocha. Muito legal. ‘Os Monstros’ é, comparativamente, mais simples, mas só na aparência. O mito saiu de cena, mas a essência da discussão, sobre a arte e o cinema, permanece a mesma. Amei. O filme termina com uma improvisação musical que dura 15 minutos – o total da duração é 81 min. Ou seja, é um peso muito grande dentro da estrutura do filme. ‘Ythaca’ tem distribuição e deve estrear em São Paulo em abril. Acredito que, por mais miúra que o filme seja – e nem é tão miúra assim, pois acho que se comuinica bem com os jovens -, o filme, justamente por isso, essa ‘comunicação’, tem um nicho no mercado. É, está sendo, a tônica de uma discussão que ocorre neste momento. Inácio Araújo faz a mediação da mesa ‘A Voz da Experiência’, que reúne José Joffily, Geraldo Sarno e Cacá Diegues. Perdi a fala do Joffily, mas assisti, emcionado, às de Cacá e Geraldo Sarno, um dos meus cults no cinemas brasileiro. Já devo ter faslado 1001 vezes no blog do meu amor por ‘Viramundo’ e ‘Coronel Delmiro Gouveia’. Cacá nunca deixa de me impressionar. Independentemente da admiração, maior ou menor, que tenha por seus filmes – e eu amo ‘Chuvas de Verão’ -, Cacá sempre me fascina pela generosidade. O mercado é sempre um monstro contra o qual nos insurgimos. Ele tem sempre esse discurso que não anula a validade da produção mais comercial, mas busca sempre chamar a atenção que o público não é uma massa chamada e uniforme. Existe público para tudo (concordo com ele). Se o filme foi feito para três espectadeores e agradou ao três, é um êxito. A questão é sempre econômico/política,. ou político/econômica. A economia do filme tem de ser formastada para esses três espectadores, ou para 30 mil, ou 300 mil, ou 3 milhões. POr mais que goste de ‘Ythaca’, jamais vou sonhar que tenha o público de ‘Tropa de Elite 2’, só para chegar à conclusão de que o filme, finalmente, está apreciando o biscoito fino de que gosto. A relação custo/benefício de ‘Ythaca’ já estaria bem dimensionada com uma plateia muitíssimo menor. Adorei o que disse Cacá. É o que penso. A linguagem, a experimentação, é um dado muito importante da geração de novos autores que estamos vendo na Mostra Aurora. Mas a linguagem é uma ferramenta. O que une essa geração, tão diversa, se é que se pode falar em união, é o seu sentimento de perplexidade/indagação em relação ao mundo em que vivemos. Os filmes expressam mal-estar, expectativa, uma vontade de entender o que se passa. Isso está no filme dos amigos cearenses, está no amigo mineiro (‘Os Residentes’, de Tiago Mata Machado). Cada vez me convenço mais que a Mostra de Tiradentes é uma experiência visceral a que cinéfilos de carteirinha deveriam se submeter, pelo menos uma vez. Digo isso porque sei que vai ser difícil não ser tomado pelo espírito da mostra. Eu, por exemplo, já inscrevi Tiradentes no meu roteiro. Meu janeiro passa por aqui. Vim de Paris para cá, deveria ter ido a Los Angeles, mas desisti, é verdade que pelas precariedade do meu estado de saúde. Mas, se tivesse ido a Los Angeles, teria perdido a supersessão de ontem – os filmes de Fortaleza e Belo Horizonte, além de ‘Santos Dumont: Pré-Cineasta’, de Carlos Adriano. Terminei agradecendo, Deus me perdoe, a diarréia que me manteve aqui.

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