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Luiz Carlos Merten

09 Março 2007 | 14h23

Colorado (não doente), vivo em casa a divisão que assola os gaúchos. Minha filha é gremista (ela, sim, doente). Entrevistei ontem pelo telefone Beto Souza, diretor do documentário Inacreditável, que estréia hoje. O documentário resgate a batalha dos Aflitos, quando o Grêmio, ameaçado de rebaixamento e com apenas sete jogadores, fez o que parecia impossível – venceu o Náutico em casa, no Recife. Inacreditável conta a história desse jogo épico – por meio de imagens de arquivo (cedidas pela Globo, principalmente) e entrevistas com gremistas de carteirinha. Em nenhum momento passou pela cabeça do produtor Gustavo Ioschpe – que colocou dinheiro do próprio bolso no projeto, não recorrendo, como se faz no Brasil, às leis de incentivo – , nem ao diretor e muito menos ao roteirista Eduardo Bueno, o Peninha, o mais parcial de todos, fazerem um resgate jornalístico do fato. O foco é de torcedor. Tirei um sarro do Beto – dizendo que ele me parecia um cara tão legal, mas , pô!, gremista… Tinha caído muito no meu conceito. Ele me disse que teve de fazer o documentário a pedido dos torcedores do Inter. Como não ficava bem eles se manifestarem publicamente, podiam pelo menos vibrar com a alma guerreira do Grêmio, anonimamente, no escurinho do cinema. Peninha vai mais longe. Diz que A Batalha dos Aflitos é mais gurerreiro que Potemkin e melhor que Titanic, pelo simples fato de que não afunda no final. Inacreditável não vai passar à história como um grande documentário – é quadrado, sem grandes inovações de linguagem, e todos os depoimentos compõem uma só fala. Mas é curioso ver um monte de gente de cinema do Sul opinando – o depoimento de Carlos Gerbase é o melhor – e também é importante dizer que o produtor tirou 50 mil cópias de DVD de Inacreditável. O próprio diretor achava que não ia vender 10% disso, em tempos de pirataria. Inacreditável já vendeu mais de 30 mil DVDs em Porto Alegre e isso, sim, é inacreditável, mesmo considerando-se o fanatismo dos torcedores. No telefone, Beto Souza, co-diretor de Netto Perde Sua Alma (com Tabajara Ruas), me disse que começa a filmar Clô Dias e Noites, adaptado do cronista gaúcho Sérgio Jockyman, no fim do mês. Mais para o fim do ano, realiza outro filme – Enquanto a Noite não Chega, baseado no livro de Josué Guimarães, grande escritor gaúcho que, infelizmente, não tem no País a projeção que seu talento merece (já tem uns 20 anos que Josué morreu). Enquanto a Noite não Chega, só como curiosidade, tem intrigantes similaridades com o filme Hamaca Paraguaya, de Paz Encina, e com a nova peça de Dib Carneiro Neto, Paraíso. Nem a Paz nem o Dib conhecem o livro ( e a maioria de vocês também não, tenho certeza), mas a longa conversa do casal de velhos cujo filho foi para a guerra e ambos estão ali sozinhos, numa cidadezinha que está morrendo (como eles) é uma coisa muito forte. Sempre fui louco por Enquanto a Noite não Chega e Os Tambores Silenciosos, entre outros livros do Josué (e o segundo também vai para o cinema). Só espero que o Beto faça o filme que este grande (é pequeno, paradoxalmente) livro merece.

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