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Luiz Carlos Merten

18 Março 2011 | 09h54

Fui ontem à última sessão de cinema do Belas Artes. Assisti ao protesto dos que se mobilizam para manter o conjunto de salas ou, pelo menos, apoiar André Sturm em sua iniciativa para transformar o estado de espírito associado ao Belas Artes, e que poderá ressuegir até em outro local, embora muita gente acredite que a campamnha de tombamento vai dar certo. Mesmo com a familiaridade que tenho/tinha com as salas – várias vezes as tive em sessões só para mim, sorry -, vivi ontem uma experiência singular. Eu e muita gente mais. Com a segurança relaxada, era possível passar de uma sala para outra, fazendo o recorrido completo. Só não assisti a ‘Queimada’, o clássico político de Gillo Pontecorvo, com Marlon Brando. De resto, vi um pouquinho de ‘O Joelho de Clara’, de Eric Rohmer; ‘No Tempo do Onça’, com  os irmãos Marx, muito engraçado; ‘O Águia’, com Rodolfo Valentino, que me surpreendeu; ‘A Doce Vida’, de Federico Fellini, e, claro, ‘O Leopardo’, de Luchino Visconti. Quando entrei na sala, o baile já havia começado. Não saí mais. Fiquei até o fim, acompanhando a agonia do príncipe Salinas. Por que chora Burt Lancaster? Numa das cenas mais belas – e enigmáticas – do filme, Lancaster, diante do espelho, verte uma lágrima. Não chora por nada, especificamente, chora por tudo. Pela derrocada de seu mundo, pela vulgaridade do novo mundo que ascende ao poder, pela juventude (o tempo?) perdido. Quando entrava na sala, dei-me conta de que, embora já tenha escrito muitas e muitas vezes sobre Visconti, e ‘Il Gattopardo’, ainda assim, sou sujeito a erros. O autor de ‘Visconti’, o livro/álbum, é Bruno Villiers, e não Villien, como escrevi no post anterior. Pior, inverti a equação – é o príncipe, Burt Lancaster, quem dança a valsa com Angélica Sedara, a deslumbrante Claudia Cardinale, sob o olhar de Tancredi/Alain Delon. A suntuosidade do filme, o detalhismo. Lembrei-me de James Ivory, a quem entrevistei no Hotel des Bains, em Veneza, sem conseguir me concentrar direito, um pouco porque Ivory, tantas vezes chamado de ‘sub’ Visconti, espinafrava o mestre e, no meu imaginário, eu olhava para a porta do grande salão esperando a todo momento ver surgir a magnífica Silvana Mangano como M. de Moens, a mãe de Tadzio. E por que Ivory espinafrava Visconti? Apesar dos seus esforços na criação de um cinema de época, Ivory era um americano de classe média, não um aristocrata italiano conhecedor de ópera e dos códigos da realeza. Ivory queria me convencer – logo a mim! – de que Visconti não era sério, que dublar seus elencos internacionais, como ele fazia, empobrecia a dramaticidade e o pathos de suas obras. Nunca me importei com o fato de Annie Girardot ter sido dublada em ‘Rocco’ ou Burt Lancaster em ‘O Leopardo’. A emoção do diálogo de Nadia e Rocco, quando ele, soldado, a reencontra, na saída da prisão. aquilo é insuperável. Havia revisto ‘O Leopardo’ em Cannes Classics, revi ontem com o mesmo prazer, o mesmo encantamento. Um filme feito de nuances – quando Angélica flerta com o príncipe, pedindo-lhe a mazurca (e ele concede a valsa), é evidente o desconforto de Tancredi. Mas o que lhe produz esse desconforto? É a consciência do poder de sedução do velho leopardo ou é uma coisa mais tênue, a consciência de outra coisa, da vulgaridade de Angélica, ofuscada por sua beleza, essa vulgaridade que tanto incomoda a filha mais velha do príncipe (Lucilla Morlacci)? O último baile, a última sessão. No final, dei uma de príncipe. Caminhei um pouco, para tomar um ar. Não sei se o Belas Artes – aquele – tem volta. O que sei é que ‘O Leopardo’ permanece como um dos mais belos filmes já feitos.

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