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Luiz Carlos Merten

21 Setembro 2010 | 10h20

Terminei agora o Georges Simenon da vez, ‘Liberty Bar’. Li as 150 e poucas páginas voando, em algumas idas e vindas nos carros do ‘Estado’ ou em táxis. No domingo, havia acabado de ler ‘Um Gato entre os Pombos’, uma Agatha Christie. Leio novos autores, releio clássicos, mas não dispenso meus velhos queridos. Na sexta, me informou a Lúcia, minha filha – a data me passara despercebida – comemoraram-se os 120 anos da dama do mistério, 15 de setembro de 1890. Me encanta como, trabalhando com tramas muitas vezes superficiais – algumas pinceladas para definir personagens e situações –, ambos adquirem densidade emocional e até profundidade. ‘Um Gato’ é sobre assassinatos de professoras numa escola tradicional. Dois crimes ocorrem por um motivo, a ganância, cometidos por uma pessoa, mas o terceiro é mais complexo, produto da inveja e do ressentimento, um acerto de contas que vai pesar na consciência de quem o cometeu. Hercule Poirot entra bem tarde no relato e o decifra em dois ou três capítulos. Em ‘Liberty Bar’, o inspetor Maigret é o gato entre os pombos. Ele vai a Cannes investigar um assassinato. Passeia pela orla, vai a Antibes. Descobre as vielas, a vida que se esconde nas entranhas da cidade, fora do circuito dos milionários (a Croisette). O próprio festival de cinema é assim. Há um mundo de fachada, de glamour, e outro que se afasta dos holofotes. E há, por parte de Maigret, uma compreensão profunda daquilo que se convencionou chamar ‘a miséria humana’. Margaret Rutherford não era exatamente como a autora descreveu Miss Marple e Albert Finney também é muito mais atarracado do que o Poirot dos livros, mas eu não consigo mais ler as histórias sem visualizar os dois. (Está claro que prefiro Finney a Peter Ustinov, embora me divirta bastante com os coadjuvantes de luxo de ‘Assassinato no Nilo’.) Maigret também é, e será sempre, Jean Gabin. Nem Agatha nem Simenon são autores fáceis de adaptar. Não há muita ação física. Poirot e Miss Marple usam as células cinzentas, Maigret, sua compreensão das pessoas. Simenon até teve mais sorte. Grandes diretores – Jacques Becker, Pierre-Granier Deferre etc – souberam colocar na tela esse submundo, ou sordidez, que Maigret atravessa e, às vezes, é magnânimo (em ‘Liberty Bar’), sem se comprometer. Leio e releio esses livros e me encantam a forma, e o fundo. Vou fazer uma ponte inesperada com o cinema. Tem gente que acha ‘Coincidências do Amor’, a nova comédia com Jennifer Aniston (de Will Speck), uma porcaria. Eu gostei. É menos boa, admito, do que ‘Plano B’ ou ‘Amor à Distância’, mas as três, de certa forma, são a mesma comédia ou o novo formato para o velho romance made in Hollywood. ‘Coincidências do Amor’ retoma o nosso conhecido relato iniciático do personagem de Jason Bateman, mas o submete a uma novidade absoluta – usa o filho como projeção desse pai. Para complicar, o menino é uma produção independente de Jennifer, que só bem mais tarde descobre que Bateman, o amigo, foi quem doou o esperma. O garoto é maravilhoso. Mal comparando, mas eu comparo, tem uma seriedade compatível com a de Enzo Staiolo em ‘Ladrões de Bicicletas’. Em ambos, pai e filho se apoiam dando-se as mãos. Divago. E tudo começou com Agatha, com Georges, tão bons..