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Luiz Carlos Merten

02 Abril 2007 | 16h53

O pessoal da Bravo e da Cult que me perdoe(m), mas a melhor revista latino-americana de cultura da atualidade é a mexicana Gatopardo. Repare na grafia – um T só, não dois, como o Gattopardo de Luchino Visconti e Lampedusa, que virou O Leopardo. Comprei no aeroporto da Cidade do México a edição especial que comemora o sétimo aniversário da revista. Alejandro González-Iñárritu está na portada (na capa). A reportagem leva o título de ‘A tripla vida de El Negro’. Faz um perfil muito interessante do diretor de Babel, lembrando como ele revolucionou o rádio e a publicidade no México, antes de virar cineasta. Iñárritu foi o homem que promoveu o rock e colocou o país da ‘ranchera’ na rota dos grandes concertos pops. Talvez exista um exagero quando a revista diz que, com Amores Brutos, ele mudou para sempre o destino do cinema latino-americano, mas faz sentido. O Cinema Novo, nos anos 60, com Glauber à frente, pregava a revolução (estética e política). A geração de Iñárritu, que se desenvolveu nos últimos dez anos, em pleno processo de consolidação do mundo global, chegou a Hollywood, e este era o objetivo. Há uma foto muito interessante que mostra os três mexicanos que estão dando as cartas no cinemão – Iñárritu, Alfonso Cuarón e Guillermo Del Toro. Os três amigos, los três caballeros. Lembram, guardadas as proporções, Coppola, Spielberg e Lucas no Oscar, indo entregar o prêmio a Scorsese. El Negro, como Iñárritu é chamado, tem um projeto – mudar o cinema mexicano. Com os amigos, está investindo em novos talentos, numa linha diversificada de produção que vai produzir (espero que bons) frutos. É um tema interessante de discussão. Para onde foram as vanguardas? Gatopardo analisa o caso limite de Marta Minujin, artista argentina, amiga de Andy Warhol, que sempre radicalizou na arte – criou um obelisco de pães e um Partenon de livros que haviam sido proibidos pelos militares em seu país –, mas cuja vida familiar é a mais ‘normal’ (melhor dizer pequeno-burguesa) possível. Gatopardo discute muito a questão da vanguarda num mundo em que a única liberdade é a de consumir (e assim mesmo seguindo as diretrizes oferecidas pela propaganda). Volto ao slogan – Liberdade é uma calça azul e desbotada. Na seqüência da reportagem com (e sobre) Iñárritu, Gatopardo apresenta um estudo fotográfico de novos diretores, com os cineastas latinos que estão dando o que falar. Há só um brasileiro na lista de 15, mas pelo menos a escolha é boa – Cláudio Assis, de O Baixio das Bestas. As reportagens são todas ótimas. Uma análiase das gangues de latinos que estão ensangüentando a Espanha, outra sobre a vitalidade do mercado editorial na Venezuela de Chávez, onde, ao contrário do que se poderia esperar numa ‘ditadura populista’, os livros e revistas críticos ao regime são os que mais vendem, e o regalo – você já ouviu falar em Yma Sumac? A cantora peruana foi um ícone dos anos 50. Como diz a revista, em plena guerera fria, capitalistas e comunistas se puseram de acordo e tanto Hollywood como o Kremlin decretaram que a melhor garganta do mundo era da diva apresentada como descendente do último imperador inca, Atahualpa. Yma Sumac rompia cristais e rebentava cordas de violino com sua voz de cinco oitavas, um fenômeno, já que a média das cantoras de óperas fica em torno de duas oitavas e meia. Yma Sumac era tão bizarra – modelo para drag queens e freaks em geral – que, fiquei sabendo agora, por Gatopardo, foi o modelo para a diva alienígena criada por Luc Besson em O Quinto Elemento (e sobre a qual comentei, aqui, outro dia). Foi também tema de estudios científicos. A ciência foi chamada a explicar o mistério dessa voz. Um professor da Universidade Auburn desenvolveu a teoria de que a voz de Yma Sumac representaria um salto do passado primitivo. Desde o século 12, não há registro documentado de outra voz igual. Onde andava Yma Sumac? Mito em todo mundo, ela sempre viveu uma relação de amor e ódio com seu país de origem, só tendo regressado agora, aos 84 anos, para receber a Ordem do Sol, a maior condecoração que o Peru outorga a civis. Pelo que representa a distinção, ela costuma ser entregue pelo próprio presidente do Peru, mas ele não compareceu para prestigiar Yma Sumac.