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Luiz Carlos Merten

24 Maio 2009 | 13h23

CANNES – Nem ia ver o filme de Gaspar Noe, do qual tanta gente me falou mal – os brasileiros, principalmente -, mas ai o profissionalismo, somado ah indicacao de Rui Tendinha, critico e jornalista portugues, me fez encarar `Et Soudain le Vide`, ou `Enter the Void`, o titulo internacional. Nunca me aconteceu de perder a Palma de Ouro nestes 16 anos que cubro o festival para o `Estado`, desde 1992 (seriam 18, mas em dois anos deixei de vir). Ainda bem que fui ver o filme de Noe. Tinha uma premiacao ideal na cabeca, mas ai `Gasparzinho`, como alguns de voces o chamam, naoh sei se para zoar, veio estragar, ou melhor, baguncar (leiam como `bagunsar`) a festa. Por `Irreversivel`, e nao sem razao, ele foi chamado de machista, misogino. Noe resolveu mostrar que nao eh nada disso e tomou o caminho oposto. Seu filme eh um pouco o delirio de um viciado que recebe um tiro e morre, mas como diz o livro tibetano dos mortos que um junkie lhe oferece, o espirito nao desenxcarna imediatamente e ele fica, projetado de fora do seu corpo, assistindo do alto – como quem voa – os acontecimentos ao redor de seu obito. O personagem tem essa irmah, asmbos ficaram oerfaos, perdendo os pais num acidente, quando eram pequenos. A relacao nao eh mais incestuosa do que a de pai e filha no filme de Heitor Dhalia, `A Deriva`, e – coincidencia ou nao – a irmah estah na cama, fazendo sexo com outro homem, quando o irmaoh morre e isso aumenta o sentimento de culpa, justamente como ocorre com o casal, especialmente a maeh, de `Anti-Christ`, de Lars Von Trier. Nao me perguntem como Gaspar Noe faz para filmar aqueles planos altos de Toquio, onde se passa a historia, imagino que misturando efeitos computadorizados com filmagem (real) e conseguindo efeitos extraordinarios na transicao para imagens sonhadas, ou quando a camera `atravessa` predios ou invade o proprio corpo humano. Hah algo de kubrickiano – de `2001` – nessa ideia de relacionar o macro e o micro-universo, jah que toda a construcaoh dramatica converge para o momento em que a irmah faz sexo, de novo (e Noe filma o detalhe dessa glande que ejacula dentro dela), mas agora o contraponto naoh eh a morte, mas a vida, a concepcao (leia como se fosse S) e o `acouchement` (parto). Ateh agora nao sei se gostei (muito) do filme, mas ele me perturbou bastante e, ah medida que escrevo, percebo como eh rico em sua multiplicidade de leituras. Quando disse que Noe fez `Et Soudain le Vide` para reverter a imagem de misogino, eh porque a mulher aqui eh fonte (e o filme termina num seio). Considerando-se que esse juri de nove pessoas tem cinco mulheres, naoh estranharia nem um pouco se Noe ganhasse algum premio importante, mas se naoh ganhar tambem naoh faz mal, porque a historia dos festivais eh permeada de injusticas. Estou rediginmdo esse texto rapidamente porque a cerimonia de encerramento comeca daqui a pouco – 19h15 na Franca, 14h15 no Brasil. Espero naoh me arrepender de nada do que estou escrevendo, sem tempo para pensar, sequer, mas qyerendo transmitir a perturbacaoh que `Gasparzinho` me provocou. E ele eh ousado, provocativo. Ateh chegar ao primeiro plano da glande, dentro da mulher – mas ele pode ser uma trucagem, claro -, ele percorre um hotel, sugestivamente chamado `Love`, em que todos os quartos estah sendo ocupados por casais trepando. Em alguns casos, ele mostra a genitalia, masculina e feminina. Em outros, faz da vagina e do penis fontes de luz (e foi ai que o filme dele me lembrou o classico de Kubrick, ateh porque acompanhamos a evolucaoh de um espermatozoide que busca seu caminho para o misterio da reproducaoh). Vamos ver o que nos reserva esse juri.